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Saúde • 13:40h • 05 de janeiro de 2026

Desconhecida no Brasil, cirurgia crânio-maxilo-facial é chave para casos complexos

Especialidade é decisiva no tratamento de deformidades faciais e cranianas, mas falta informação, reconhecimento institucional e integração ao sistema de saúde

Jornalista: Luis Potenza MTb 37.357 | Com informações da Nova Ideia | Foto: Divulgação

Entre a estética e a função vital, a cirurgia crânio-maxilo-facial segue fora do radar
Entre a estética e a função vital, a cirurgia crânio-maxilo-facial segue fora do radar

Apesar de ter papel central no tratamento de deformidades complexas da face e do crânnio, o cirurgião crânio-maxilo-facial ainda é pouco conhecido pela população brasileira e, em muitos casos, até dentro do próprio meio médico. O desconhecimento sobre essa especialidade impacta diretamente o acesso dos pacientes a diagnósticos precoces, tratamentos adequados e reabilitação funcional. Levantamento da Revista Brasileira de Cirurgia Plástica indica que mais de 70% dos estudantes de medicina não sabem identificar com clareza as condições que fazem parte da atuação da cirurgia plástica reconstrutora, especialmente na área crânio-maxilo-facial.

O cirurgião crânio-maxilo-facial é um médico com formação longa e altamente especializada. Para atuar na área, é necessário concluir residência médica em cirurgia plástica, cirurgia de cabeça e pescoço ou otorrinolaringologia, seguida, muitas vezes, de especializações adicionais, frequentemente realizadas no exterior. Trata-se de uma atuação que vai muito além da estética e envolve funções vitais como respiração, mastigação, visão, fala e, em crianças, o próprio desenvolvimento neurológico.

Ainda assim, esses profissionais são pouco acionados em situações nas quais poderiam oferecer uma abordagem mais completa. Malformações craniofaciais, traumatismos complexos, deformidades congênitas e síndromes raras muitas vezes percorrem um caminho fragmentado dentro do sistema de saúde antes de chegar ao especialista mais indicado.

Segundo Clarice Abreu, cirurgiã plástica e crânio-maxilo-facial com formação no Brasil, na Europa e nos Estados Unidos, o problema começa dentro da própria estrutura médica. “Somos poucos. A cirurgia crânio-maxilo-facial é uma área extremamente especializada, mas com baixa visibilidade. A associação brasileira da especialidade reúne menos de 300 membros ativos, um número muito pequeno para o tamanho da população brasileira. Além disso, existe muita confusão entre o cirurgião crânio-maxilo-facial, que é médico, e o cirurgião bucomaxilofacial, que é dentista. Essa desinformação dificulta o reconhecimento da nossa atuação”, explica.

Essa falta de clareza se reflete diretamente no atendimento a crianças com malformações craniofaciais. Em muitos hospitais, o primeiro encaminhamento é feito para especialidades que não contemplam toda a complexidade do caso, o que pode atrasar intervenções fundamentais. A ausência de protocolos interdisciplinares bem definidos e de campanhas educativas sobre a especialidade contribui para que o atendimento adequado dependa, muitas vezes, da estrutura disponível em cada região.

Na prática, o acesso ao cirurgião crânio-maxilo-facial ainda é desigual. “Quem precisa desse cuidado muitas vezes depende de encontrar um centro de referência ou um profissional que atue também no SUS. Isso não deveria ser uma questão de sorte”, avalia Clarice. A médica integra equipes do Instituto Estadual do Cérebro Paulo Niemeyer e do Hospital Municipal Nossa Senhora do Loreto, além de coordenar um centro privado de malformações craniofaciais. Ela também participou de cirurgias raras de separação de gêmeos craniópagos realizadas no Brasil e no exterior.

Especialistas apontam que a reversão desse cenário passa por ações institucionais concretas. Entre elas, estão o fortalecimento das associações médicas da área, a ampliação de vagas de residência, maior divulgação da especialidade nos cursos de medicina e a inclusão formal do cirurgião crânio-maxilo-facial nas linhas de cuidado do SUS e da saúde suplementar.

“Não se trata apenas de corrigir uma deformidade visível. Estamos falando de devolver funcionalidade, qualidade de vida e desenvolvimento pleno ao paciente”, conclui a médica. Para profissionais da saúde e gestores públicos, ampliar o conhecimento sobre essa especialidade é um passo essencial para tornar o sistema mais eficiente, integrado e justo.

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