Responsabilidade Social • 16:16h • 29 de julho de 2026
A conta das bets chegou ao SUS: dependência em apostas já pressiona a saúde mental no Brasil
Especialistas alertam que o crescimento das bets amplia casos de ansiedade, depressão e ludopatia, elevando a demanda por atendimento psicológico e psiquiátrico em todo o país
Jornalista: Luis Potenza MTb 37.357 | Com informações da Dampress Assessoria | Foto: Âncora1
O avanço das plataformas de apostas esportivas no Brasil deixou de ser apenas um tema econômico ou regulatório e passou a despertar preocupação também na área da saúde. O aumento do número de apostadores tem sido acompanhado por um crescimento dos casos de dependência, ansiedade, depressão, endividamento e conflitos familiares, gerando reflexos diretos sobre o Sistema Único de Saúde (SUS) e a saúde suplementar.
À medida que mais pessoas procuram atendimento psicológico, psiquiátrico e assistência social em decorrência da ludopatia, como é conhecida a dependência em jogos de azar, cresce também a discussão sobre quem arca com os custos produzidos por esse novo cenário.
Procura por atendimento cresce rapidamente
Dados do Ministério da Saúde mostram que a procura por serviços de saúde mental relacionados à dependência de jogos de azar aumentou cerca de 140% nos últimos cinco anos, evidenciando que o problema já ultrapassou o âmbito individual.
O reflexo também aparece na saúde privada. Segundo a plataforma Doctoralia, as consultas em Psicologia e Psiquiatria cresceram 18,5% em 2025. Já levantamento da Funcional Health Tech aponta aumento de 12,4% no consumo de antidepressivos entre adultos de 29 a 58 anos no período de um ano encerrado em maio de 2025.
Embora esses números não sejam atribuídos exclusivamente às apostas esportivas, especialistas afirmam que o crescimento da ludopatia passou a integrar esse cenário de maior demanda por cuidados em saúde mental.
Recursos da saúde são limitados
Para Rodrigo Metedieri Miguel, cofundador e COO da Vitta, o debate precisa considerar também os impactos financeiros sobre todo o sistema de saúde.
"Na gestão de saúde existe um princípio que nunca muda: os recursos são limitados. Sempre que surge uma nova demanda assistencial de grande escala, ela passa a disputar orçamento, profissionais e estrutura com doenças que já estavam na fila. Em saúde, infelizmente, não existe orçamento infinito."
Segundo Rodrigo, esse fenômeno é conhecido como custo de oportunidade, quando recursos destinados ao tratamento de uma condição deixam de estar disponíveis para outras necessidades igualmente importantes.
Custos acabam distribuídos por toda a sociedade
Na avaliação do especialista, a discussão vai além do atendimento aos pacientes e alcança a sustentabilidade dos sistemas de saúde.
"Cada psicólogo, psiquiatra, leito, consulta ou investimento direcionado ao tratamento dos efeitos da ludopatia deixa de estar disponível para outras pessoas que também dependem do SUS ou de um plano de saúde. Não se trata de discutir se essas pessoas merecem atendimento. Elas merecem. A questão é que alguém sempre paga a conta, e normalmente é todo o sistema."
Ele também chama atenção para o fato de que os lucros da atividade econômica permanecem concentrados nas empresas do setor, enquanto parte significativa das consequências acaba absorvida pelo poder público, pelos planos de saúde, pelas empresas e pela sociedade.
Empresas também sentem os impactos
Os efeitos da dependência em apostas começam a aparecer dentro das organizações.
Como aproximadamente 70% dos beneficiários de planos de saúde privados possuem contratos empresariais, segundo dados da Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS), o aumento da procura por tratamentos em saúde mental tende a refletir no custo dos planos e na produtividade das equipes.
"No mercado corporativo de saúde, a conta chega na produtividade e no reajuste do plano. A maioria dos gestores já percebe a queda de produtividade ligada ao vício em apostas dentro das empresas e o impacto direto na saúde mental das equipes. Isso tudo, cedo ou tarde, é incorporado ao custo operacional", afirma Rodrigo.
Prevenção pode reduzir impactos futuros
Para os especialistas, o desafio não é discutir a existência das plataformas de apostas, mas ampliar estratégias de prevenção, educação e conscientização sobre os riscos da dependência.
Segundo Rodrigo, experiências na área da saúde demonstram que investir em prevenção costuma ser mais eficiente e menos oneroso do que ampliar continuamente a estrutura necessária para tratar doenças já instaladas.
Com o crescimento das apostas esportivas no país, a discussão passa a envolver não apenas os apostadores, mas também o impacto coletivo sobre os serviços de saúde, a assistência social e a economia, levantando um debate sobre como equilibrar desenvolvimento econômico, proteção ao consumidor e sustentabilidade dos sistemas de atendimento.
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