Variedades • 17:48h • 28 de outubro de 2026
A eleição terminou, mas o Brasil continua vivendo uma disputa que parece não ter fim
Passadas 72 horas do segundo turno, a tensão da apuração deu lugar a novos conflitos políticos, questionamentos ao resultado e uma polarização que continua atingindo famílias, trabalhadores e empresas
Artigo | Jornalista: Luis Potenza MTb 37.357 | Foto: Divulgação
Senti medo durante essas eleições. Não foi apenas a tensão de acompanhar uma disputa presidencial, mas a apreensão diante do que poderia acontecer depois do resultado. Percebi esse mesmo sentimento em muitas pessoas, inclusive naquelas que acompanhavam os acontecimentos com seriedade, procurando informações, analisando propostas e tentando compreender o futuro do país sem transformar a política em uma disputa de fanatismos.
No domingo, acompanhei a apuração pelo Tribunal Superior Eleitoral, observando os números mudarem conforme os votos eram contabilizados. A diferença entre os candidatos era pequena, as posições se alternavam e a expectativa aumentava a cada atualização. Em determinado momento, preferi interromper o acompanhamento e esperar mais vinte ou trinta minutos. Aquela tensão precisava de uma pausa, porque não estávamos diante de uma votação de entretenimento, como um paredão do BBB, mas de uma escolha que definiria a condução do Brasil pelos próximos quatro anos.
O resultado foi histórico. O candidato que havia terminado o primeiro turno atrás conseguiu vencer a disputa, contrariando o histórico das eleições presidenciais brasileiras com segundo turno. Luiz Inácio Lula da Silva, aos 81 anos, conquistou seu quarto mandato, ao lado do vice Geraldo Alckmin, com uma diferença de aproximadamente quatro milhões de votos. Uma eleição que mobilizou milhões de brasileiros, apresentou diferentes candidaturas no primeiro turno e terminou com uma disputa que deixou evidente o tamanho da divisão política do país.
O resultado das urnas e as 72 horas seguintes
Durante a votação, problemas relacionados ao transporte de eleitores levaram à ampliação excepcional do horário em determinados locais, uma medida solicitada com a concordância das duas candidaturas para garantir que pessoas prejudicadas no deslocamento pudessem exercer seu direito ao voto. Afinal, ninguém poderia determinar em qual candidato essas pessoas votariam.
Depois da derrota, Flávio Bolsonaro passou a questionar o processo eleitoral, incluindo a extensão do horário de votação. A controvérsia ganhou novos capítulos com a determinação judicial envolvendo seus passaportes, as declarações públicas de que não pretendia deixar o Brasil e, posteriormente, sua saída do país em direção aos Estados Unidos.
A sequência dos acontecimentos merece atenção, especialmente pela contradição entre a declaração de que permaneceria no Brasil e a decisão posterior de viajar. Também considero importante distinguir uma saída do território nacional de uma situação juridicamente reconhecida como fuga ou descumprimento de ordem judicial, porque a gravidade de cada circunstância depende dos atos e das determinações efetivamente existentes.
Nas declarações feitas em território americano, Flávio voltou a apresentar acusações contra o governo brasileiro e a defender medidas internacionais relacionadas ao combate às organizações criminosas. O pedido para que facções brasileiras sejam classificadas como organizações terroristas pelos Estados Unidos merece uma discussão cuidadosa sobre suas possíveis consequências diplomáticas, jurídicas e para a soberania nacional.
O que me preocupa é a continuidade de um enfrentamento político que, mesmo depois de concluída a eleição, parece não encontrar limites. Divergir do resultado, questionar decisões e procurar os instrumentos legais disponíveis são direitos de qualquer cidadão. Mas transformar a derrota eleitoral em uma contestação permanente da legitimidade das instituições exige responsabilidade, sobretudo de quem disputou a Presidência da República.
Quando a disputa política chega à vida de quem trabalha
Enquanto isso, pessoas comuns continuam sendo arrastadas para conflitos que ultrapassam a escolha de um candidato. Em Assis, voltou a circular uma lista de estabelecimentos comerciais supostamente ligados ao apoio a Lula, incentivando uma divisão que pode atingir empresários, funcionários e famílias que dependem dessas atividades.
Um estabelecimento não existe isoladamente. Ele emprega pessoas, compra de fornecedores, paga tributos e participa da economia da cidade. Quando uma campanha de boicote surge exclusivamente por uma preferência política atribuída ao proprietário, seus efeitos podem alcançar trabalhadores que sequer compartilham daquela posição.
O episódio me lembra as campanhas contra a Havaianas, quando a rejeição a uma marca acabou ignorando a realidade dos comerciantes e franqueados que também dependem de suas vendas. O direito de escolher onde comprar existe, evidentemente, mas precisamos refletir sobre o momento em que divergências políticas passam a alimentar hostilidade, constrangimentos e perseguições pessoais.
Não estou dizendo que todos os eleitores de um determinado candidato compartilhem desses comportamentos. Conheço a importância de distinguir quem vota por convicção, quem discorda respeitosamente e quem transforma a política em uma espécie de devoção, incapaz de admitir qualquer questionamento.
O país precisa continuar depois da eleição
Durante alguns dias de outubro, experimentei me afastar das redes sociais pessoais e dos assuntos políticos mais sensíveis, procurando compreender o efeito desse consumo constante de informações sobre minha própria rotina. Voltei a acompanhar uma eleição marcada por medo, expectativa e uma quantidade impressionante de conflitos, muitos deles prolongados depois que as urnas já haviam apresentado seu resultado.
Não considero que reconhecer a vitória de um candidato signifique concordar com todas as suas decisões, assim como respeitar o resultado não impede ninguém de exercer oposição. Uma democracia precisa de fiscalização, críticas, divergências e participação política, mas também depende do reconhecimento das regras que tornam possível a alternância de poder.
O que me incomoda é perceber que a disputa entre lideranças políticas continua interferindo em relações pessoais, amizades, famílias e pequenos negócios, enquanto a vida de milhões de brasileiros segue com suas dificuldades, compromissos e responsabilidades.
Passaram-se apenas 72 horas desde o resultado do segundo turno, mas a sucessão de acontecimentos parece ocupar um período muito maior. O Brasil escolheu quem deverá governá-lo pelos próximos quatro anos, embora parte da disputa continue sendo travada fora das urnas.
Talvez a pergunta que devamos fazer agora não seja quem conseguiu comemorar mais ou quem ficou mais indignado com o resultado, mas até quando estaremos dispostos a permitir que a disputa pelo poder continue determinando a maneira como tratamos as pessoas ao nosso redor.
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