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Ciência e Tecnologia • 19:47h • 21 de agosto de 2026

Abelhas fósseis ajudam pesquisadores da USP a reconstruir milhões de anos de evolução

Estudos realizados em Ribeirão Preto analisaram centenas de características anatômicas e identificaram uma linhagem extinta como a mais próxima das atuais abelhas-sem-ferrão

Jornalista: Luis Potenza MTb 37.357 | Com informações da USP | Foto: Divulgação

Além do DNA: anatomia de abelhas ajuda USP a remontar uma história de milhões de anos
Além do DNA: anatomia de abelhas ajuda USP a remontar uma história de milhões de anos

Pesquisadores da USP em Ribeirão Preto estão reconstruindo a história evolutiva das abelhas a partir de uma fonte que vai além do DNA: a própria anatomia dos insetos. Dois estudos recentes compararam centenas de características de espécies atuais e fósseis e permitiram investigar transformações ocorridas ao longo de milhões de anos, incluindo a identificação de uma linhagem extinta como a mais próxima das atuais abelhas-sem-ferrão.

Os trabalhos foram desenvolvidos no Laboratório de Biologia Comparada e Abelhas da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Ribeirão Preto (FFCLRP) da USP, coordenado pelo professor Eduardo Almeida. As pesquisas utilizaram a fenômica, abordagem que reúne e compara sistematicamente características observáveis dos organismos.

Um dos estudos se concentrou nas cerca de 650 espécies de abelhas-sem-ferrão, conhecidas cientificamente como Meliponini. O outro ampliou a análise para representar a diversidade das aproximadamente 21 mil espécies de abelhas conhecidas no planeta.

Quase 400 características ajudam a contar essa história

No estudo sobre abelhas-sem-ferrão, os cientistas construíram uma matriz com 375 características anatômicas de todos os gêneros e subgêneros da tribo Meliponini. Já a pesquisa mais abrangente reuniu 394 características, incluindo estruturas externas e internas.

As análises envolveram asas, pernas, peças bucais e componentes internos do esqueleto. No estudo mais amplo, 11% das características utilizadas eram inteiramente novas e 68% foram reinterpretadas pelos pesquisadores.

Parte importante do trabalho foi possível graças à Coleção Entomológica Professor J. M. F. Camargo, mantida pela FFCLRP. Iniciado na década de 1960, o acervo reúne centenas de milhares de exemplares e é considerado uma importante coleção para pesquisas com abelhas-sem-ferrão. Os cientistas também utilizaram materiais de instituições do Brasil e de outros países.

Fóssil preenche uma lacuna na árvore das abelhas

Um dos resultados de maior destaque surgiu na investigação das abelhas-sem-ferrão. A análise apontou a tribo extinta Melikertini, conhecida exclusivamente por fósseis encontrados no Hemisfério Norte, como a linhagem mais próxima das atuais Meliponini.

Os pesquisadores também estudaram a espécie fóssil Proplebeia dominicana, preservada em âmbar da República Dominicana. A inclusão de espécies extintas é especialmente importante porque o DNA dificilmente permanece disponível durante milhões de anos, enquanto estruturas anatômicas preservadas podem fornecer pistas sobre relações evolutivas.

Essa é justamente uma das vantagens da morfologia mesmo diante dos avanços no sequenciamento genético. Enquanto o DNA ajuda a estabelecer relações de parentesco, características anatômicas permitem investigar quais transformações ocorreram durante essa trajetória.

Partes do corpo evoluíram em velocidades diferentes

O segundo estudo permitiu observar ainda que diferentes estruturas das abelhas não se transformaram no mesmo ritmo ao longo da evolução. Uma das descobertas envolveu o aparelho bucal das chamadas abelhas de língua longa.

Os pesquisadores identificaram uma fase de intensa transformação das estruturas relacionadas à alimentação durante o surgimento dessas linhagens. Posteriormente, essas características passaram por um período de maior estabilidade evolutiva.

As bases construídas pela equipe poderão agora ser utilizadas em estudos sobre classificação, adaptação, comportamento social, biogeografia e conservação. Os trabalhos também mostram como informações anatômicas, fósseis e dados genéticos podem ser combinados para reconstruir de maneira mais completa a evolução e a diversidade das abelhas.

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