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Saúde • 09:43h • 30 de novembro de 2025

Agorafobia ganha visibilidade e reforça necessidade de diagnóstico precoce

Transtorno segue pouco discutido, mas limita autonomia, afasta pessoas do convívio social e exige atuação conjunta entre psicologia e psiquiatria

Jornalista: Luis Potenza MTb 37.357 | Com informações da CW Assessoria | Foto: Divulgação

Medo de sair de casa aumenta após pandemia e exige atenção de profissionais
Medo de sair de casa aumenta após pandemia e exige atenção de profissionais

Seis anos após a chegada da Covid-19 ao mundo, os impactos emocionais do período continuam presentes. Estudos da OMS registraram aumento de cerca de 25% nos casos de ansiedade e depressão no primeiro ano da pandemia, e profissionais no Brasil observam que esse efeito se prolongou, contribuindo para um crescimento relevante nos diagnósticos de agorafobia — transtorno marcado pelo medo intenso de estar em locais ou situações em que a fuga pareça difícil.

Apesar de frequente, a agorafobia segue pouco discutida. Muitos pacientes não reconhecem o transtorno, confundindo sinais com simples tentativas de se preservar. Aline Reichert, neuropsicóloga do CAISM, unidade da Secretaria de Estado da Saúde de São Paulo gerenciada pelo CEJAM, explica que o quadro se torna preocupante quando interfere na rotina. “A pessoa acredita que está apenas se preservando, evitando desconfortos. Mas quando o medo impede de ir ao trabalho, de usar transporte público ou até de realizar atividades básicas, estamos diante de um transtorno sério”, afirma.

Sinais da condição

Os primeiros sinais podem surgir de forma discreta, como evitar compromissos, recusar convites ou sentir desconforto em ambientes movimentados. Após o período de isolamento social, esse padrão ganhou força: para algumas pessoas, a casa se tornou sinônimo de segurança, e sair passou a gerar ansiedade. Reichert reforça que buscar ajuda psicológica é essencial quando a intensidade dos sintomas dura dias e passa a prejudicar a vida cotidiana.

O psiquiatra e diretor do CAISM, Dr. Rodrigo Lancelote, lembra que a agorafobia integra o grupo dos transtornos fóbico-ansiosos descritos no CID. São quadros marcados por ansiedade desencadeada por situações que não representam perigo real, mas que o paciente interpreta como ameaçadoras. Entre os sintomas, são comuns palpitações, sudorese, tremores, falta de ar, sensação de desmaio e medo de morrer ou perder o controle. A associação com o transtorno do pânico é frequente, com episódios abruptos de ansiedade e manifestações físicas intensas.

Dentro desse grupo, também estão as fobias sociais — relacionadas ao medo de exposição e julgamento — e as fobias específicas, ligadas a objetos ou situações como altura, voar, animais ou espaços fechados. Segundo o psiquiatra, algumas pessoas apresentam combinações dessas condições ou episódios ao longo da vida, o que exige avaliação cuidadosa para entender a ordem de surgimento, a evolução dos sintomas e o impacto na funcionalidade. “A agorafobia pode surgir como transtorno principal, mas também pode aparecer dentro de quadros de depressão ou ansiedade generalizada. É a compreensão desse conjunto que orienta o tratamento mais adequado”, explica.

Como funciona o diagnóstico

O diagnóstico precoce é decisivo. Pequenas mudanças de comportamento — evitar filas, adiar compromissos, ou sentir incômodo apenas ao imaginar sair de casa — já merecem atenção. Aline ressalta que intensidade, duração e impacto funcional são os marcadores que orientam a busca por ajuda. Quanto antes o tratamento começa, maior a chance de o cérebro reaprender padrões seguros.

A abordagem inclui psicoterapia, sobretudo a terapia cognitivo-comportamental, além de técnicas de respiração, estratégias de regulação emocional e, quando indicado, acompanhamento psiquiátrico. Dr. Lancelote destaca que antidepressivos apresentam boa eficácia para reduzir sintomas ansiosos e prevenir crises, mas que a integração entre psiquiatria e psicoterapia é o caminho mais recomendado.

Para ambos os especialistas, o estigma ainda é uma barreira. Muitas pessoas acreditam que “deveriam dar conta sozinhas”, o que retarda o diagnóstico e prolonga o sofrimento. “A agorafobia é um tema que merece espaço porque fala de autonomia, de funcionalidade, de vida real. Trata-se de um transtorno tratável, mas que só melhora quando passa a ser reconhecido”, afirma o psiquiatra.

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