Saúde • 12:03h • 22 de junho de 2026
Alta demanda faz SUS ampliar teleatendimento a jogadores compulsivos
Serviço por telefone e videochamadas deve receber R$ 70 milhões
Jornalista: Carolina Javera MTb 37.921 com informações de Agência Brasil | Foto: Arquivo Âncora1
O Ministério da Saúde pretende ampliar ainda este ano a oferta de atendimentos por telefone e videochamada para pessoas com problemas relacionados ao vício em jogos de apostas. A iniciativa faz parte de um conjunto de ações voltadas à prevenção, ao diagnóstico e ao tratamento de transtornos associados às apostas esportivas e jogos online.
Para reforçar o serviço, a pasta contará com o apoio da Agência Brasileira de Apoio à Gestão do Sistema Único de Saúde (AgSUS), responsável por contratar empresas especializadas que ampliarão a assistência gratuita aos jogadores compulsivos em todo o país.
O serviço de teleatendimento voltado especificamente para pessoas com problemas relacionados a apostas foi lançado em março deste ano em parceria com o Hospital Sírio-Libanês. Em apenas três meses de funcionamento, a plataforma já registrou 6.912 usuários cadastrados.
Investimentos e pesquisa inédita
A expansão do atendimento exigirá investimentos de aproximadamente R$ 70 milhões até o final deste ano. Os recursos fazem parte do plano nacional criado pelo Ministério da Saúde para fortalecer a Rede de Atenção Psicossocial (Raps), ampliar o acesso da população aos serviços especializados e qualificar os profissionais que atuam no atendimento a pessoas afetadas por jogos de apostas.
Além disso, o governo federal destinará R$ 6 milhões para a realização de uma pesquisa nacional inédita que irá investigar os impactos das apostas na saúde dos brasileiros. O estudo buscará identificar os grupos mais vulneráveis, os principais fatores de risco e os efeitos causados pelo comportamento compulsivo relacionado aos jogos.
Os resultados deverão servir de base para a formulação de políticas públicas de prevenção, acolhimento e tratamento no Sistema Único de Saúde (SUS).
Recursos das bets ajudam a financiar ações
Parte do financiamento das medidas virá dos recursos oriundos da chamada destinação social das empresas de apostas. Em 2025, o Ministério da Saúde recebeu R$ 45,7 milhões provenientes dessa fonte.
O valor corresponde a 1% da arrecadação tributária gerada pelas empresas de apostas e pelos apostadores. No ano passado, a arrecadação total do setor alcançou R$ 4,5 bilhões, distribuídos entre áreas como esportes, turismo, educação, segurança pública, seguridade social e saúde, conforme prevê a Lei nº 14.790, de 2023.
Pela legislação, os recursos destinados à saúde devem ser aplicados exclusivamente em ações de prevenção, controle e redução dos danos sociais decorrentes dos jogos de apostas.
Embora o Ministério da Saúde reconheça que não é possível calcular com precisão quanto o SUS gasta especificamente com pacientes afetados por jogos de apostas, a pasta destaca que os recursos provenientes da destinação social representam uma importante fonte complementar de financiamento para essas ações.
Como acessar o atendimento
O acesso ao teleatendimento em saúde mental do SUS é feito por meio do aplicativo Meu SUS Digital. Após realizar o cadastro e acessar a plataforma com uma conta Gov.br, o usuário pode utilizar os serviços disponíveis gratuitamente pelo celular ou pela versão web.
Além do atendimento remoto, a plataforma oferece informações sobre os riscos dos jogos de apostas, materiais educativos e orientações para prevenção.
Um dos recursos disponíveis é um autoteste elaborado por especialistas. Caso o resultado indique risco moderado ou elevado para transtornos relacionados ao jogo, o usuário é encaminhado automaticamente para o teleatendimento especializado.
Quando o risco identificado é menor, a recomendação é procurar acompanhamento presencial em Centros de Atenção Psicossocial (Caps) ou em Unidades Básicas de Saúde (UBS).
A Ouvidoria do SUS também está preparada para orientar a população sobre o tema por meio do telefone 136, além de canais digitais como WhatsApp, formulários eletrônicos, chatbot e teleatendimento. Todo o processo segue as regras da Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD).
Crescimento dos casos preocupa especialistas
A Organização Mundial da Saúde (OMS) reconhece os transtornos relacionados aos jogos de apostas como um comportamento capaz de causar sérios prejuízos à saúde mental. O problema está associado ao aumento de casos de ansiedade, depressão, compulsões, autolesão e risco de suicídio.
No Brasil, os atendimentos realizados pelo SUS relacionados a jogo patológico e compulsão por apostas cresceram 104% entre janeiro de 2018 e maio de 2025.
Nesse período, foram registrados 10.553 atendimentos. Desses, 4.316 ocorreram em serviços ambulatoriais e 6.237 na Atenção Primária à Saúde. Os casos são mais frequentes entre homens e pessoas com idade entre 20 e 49 anos, embora especialistas observem aumento preocupante entre jovens.
Medidas para prevenir o vício
O avanço dos problemas relacionados às apostas tem motivado a criação de novas ferramentas de prevenção. Em dezembro de 2025, o governo federal lançou a Plataforma Centralizada de Autoexclusão, que permite ao cidadão bloquear voluntariamente seu acesso a todos os sites de apostas autorizados a operar no Brasil.
Até o final de maio deste ano, mais de 500 mil pessoas já haviam aderido à ferramenta.
Outra iniciativa foi a publicação, em janeiro, do Guia de Cuidado para Pessoas com Problemas Relacionados a Jogos de Apostas. O documento orienta profissionais de saúde sobre acolhimento, acompanhamento e tratamento de pessoas impactadas pelo vício em jogos.
Mais recentemente, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva assinou o Decreto nº 13.033, que amplia o combate ao mercado ilegal de apostas. Entre as medidas previstas está a possibilidade de utilização de recursos confiscados de empresas irregulares para ações de enfrentamento ao crime organizado.
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