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Ciência e Tecnologia • 19:45h • 27 de agosto de 2026

Antes dos dinossauros: peixe de 15 centímetros viveu no Brasil há cerca de 254 milhões de anos

Fóssil excepcionalmente preservado pertence a uma nova espécie que viveu há cerca de 254 milhões de anos, quando América do Sul e África ainda faziam parte do Gondwana

Da Redação | Com informações da EBC | Foto: Journal of South American Earth®

Fóssil raro no Brasil revela peixe que viveu antes da maior extinção da história da Terra
Fóssil raro no Brasil revela peixe que viveu antes da maior extinção da história da Terra

Um peixe de aproximadamente 15 centímetros que viveu há cerca de 254 milhões de anos no território que hoje corresponde a Mato Grosso foi identificado como uma nova espécie pré-histórica. O fóssil, encontrado no município de Alto Garças e apresentado em estudo científico com participação da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj), preserva praticamente todo o corpo do animal e ajuda pesquisadores a reconstruir um ecossistema existente pouco antes da maior extinção em massa conhecida pela ciência.

Batizada de Leolepis, a nova espécie pertence aos actinopterígios, grupo dos peixes de nadadeiras raiadas que atualmente reúne cerca de 96% dos peixes vertebrados, incluindo espécies conhecidas como atum, salmão e bacalhau. O pequeno animal apresentava uma proteção incomum para os padrões atuais: escamas resistentes compostas por dentina e esmalte, os mesmos materiais encontrados nos dentes humanos.

A preservação é justamente uma das características que tornam a descoberta relevante. Grande parte dos peixes dessa idade encontrados no Brasil é conhecida por meio de dentes, escamas ou fragmentos ósseos isolados. O exemplar de Leolepis, por outro lado, manteve praticamente todo o corpo conservado e foi classificado no estudo como o peixe de nadadeiras raiadas do Permiano mais bem preservado já encontrado em Mato Grosso, além de representar um registro raro mundialmente.

Um peixe de quando América do Sul e África estavam unidas

O Leolepis viveu durante o Permiano Superior, em um grande sistema aquático continental formado a partir de um antigo mar interior. Naquele período, a configuração dos continentes era muito diferente da atual e América do Sul e África ainda estavam unidas no supercontinente Gondwana.

Os dentes reduzidos também oferecem pistas sobre o cotidiano do animal. A partir do tamanho dessas estruturas, os pesquisadores estimam que a alimentação fosse composta por pequenos invertebrados e plantas, informação que ajuda a compreender as relações existentes naquele ecossistema pré-histórico.

A época em que o peixe viveu torna o fóssil ainda mais significativo. Cerca de 2 milhões de anos depois, há aproximadamente 252 milhões de anos, ocorreu a extinção Permo-Triássica. Considerado o maior episódio de extinção em massa conhecido, o evento eliminou cerca de 78% da vida terrestre e até 95% das espécies marinhas.

Fóssil apareceu perto de uma enorme cratera de impacto

A localização da descoberta acrescenta outra particularidade ao achado. O fóssil foi encontrado a apenas 50 quilômetros da cratera de impacto de Araguainha, considerada a maior e mais bem preservada estrutura desse tipo na América do Sul.

A descoberta também amplia um registro ainda limitado para a ciência, já que os peixes continentais do Paleozoico encontrados na América do Sul permanecem pouco conhecidos. Com um exemplar tão completo, características que normalmente se perderiam ao longo de milhões de anos podem ser utilizadas para identificar outros registros da mesma espécie.

A pesquisadora do Departamento de Zoologia da Uerj Valéria Gallo, que participou da descrição, explica que “por estar excepcionalmente preservado, o exemplar pode ajudar os pesquisadores a reconhecer a presença da espécie em outras áreas da Bacia do Paraná e a estabelecer novas correlações entre diferentes formações geológicas”.

Descoberta começou com uma coleta feita em 2005

Embora a apresentação científica da nova espécie seja recente, a história do fóssil começou há mais de duas décadas. O espécime foi coletado em 2005 pelo geólogo Léo Adriano de Oliveira, que posteriormente disponibilizou o material para pesquisa.

O exemplar passou a integrar a Coleção Paleontológica da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT), em Cuiabá. Mais de 250 milhões de anos depois da existência do pequeno peixe, seu estado de conservação abre uma janela rara para um período que antecedeu uma das transformações mais profundas já registradas na história da vida no planeta.

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