Ciência e Tecnologia • 19:53h • 14 de julho de 2026
Antidepressivo sertralina pode auxiliar no tratamento de fungos resistentes
Pesquisa identifica que o medicamento provoca a desregulação metabólica dos fungos, o que pode abrir caminho para novas estratégias contra as doenças que provocam
Jornalista: Carolina Javera MTb 37.921 com informações do CFF | Foto: Arquivo Âncora1
Pesquisadores da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto (FMRP) da USP investigam o potencial antifúngico da sertralina, medicamento usado no tratamento da depressão, ansiedade e síndrome do pânico. Os resultados do estudo foram publicados na revista científica Genetics and Molecular Biology e indicam que o remédio pode comprometer a sobrevivência de fungos ao interferir em diferentes processos das células desses microrganismos.
A pesquisa ganha importância diante do aumento de infecções fúngicas resistentes aos tratamentos convencionais. O trabalho faz parte de um Projeto Temático financiado pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp) e foi coordenado pela professora Nilce M. Martinez-Rossi, em parceria com o professor Antônio Rossi Filho e a pesquisadora Mayara Itala Geronimo de Azevedo.
O interesse pela sertralina surgiu após observações clínicas mostrarem que pacientes em tratamento psiquiátrico apresentavam menos episódios de candidíase. A partir disso, os pesquisadores passaram a estudar os efeitos do medicamento contra diferentes fungos, como Candida albicans, Candida auris, Cryptococcus neoformans, Aspergillus fumigatus e Trichophyton rubrum.
A estratégia é conhecida como reposicionamento de medicamentos, quando um remédio já aprovado para uma finalidade passa a ser estudado para tratar outras doenças. Segundo os pesquisadores, essa abordagem reduz tempo, custos e riscos no desenvolvimento de novas terapias, já que o medicamento já passou por testes de segurança em humanos.
Os estudos mostram que a sertralina age de forma diferente dos antifúngicos tradicionais. Em vez de atacar apenas um mecanismo do fungo, o medicamento interfere simultaneamente na produção de proteínas, geração de energia, funcionamento da membrana celular e no metabolismo, dificultando a adaptação e o desenvolvimento de resistência.
Para chegar a essa conclusão, a equipe utilizou técnicas de análise genética capazes de avaliar milhares de genes ao mesmo tempo. Os resultados indicaram alterações importantes no funcionamento das células dos fungos, reduzindo sua capacidade de crescimento e multiplicação.
A pesquisa também mostrou que a sertralina provoca intenso estresse celular nos fungos, aumentando a produção de moléculas associadas ao estresse oxidativo e ativando mecanismos de defesa que, quando mantidos por muito tempo, deixam de ser suficientes para garantir a sobrevivência desses microrganismos.
Além disso, o medicamento demonstrou potencial para reduzir a formação de biofilmes, estruturas que protegem os fungos e dificultam a ação dos tratamentos, tanto quando utilizado sozinho quanto em combinação com antifúngicos já disponíveis.
Apesar dos resultados considerados promissores, os pesquisadores destacam que ainda são necessários novos estudos para confirmar a eficácia e a segurança da sertralina como antifúngico antes que ela possa ser utilizada com essa finalidade na prática clínica. Também serão avaliadas alternativas como o uso tópico do medicamento e sua associação com outros antifúngicos.
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