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Economia • 17:09h • 06 de novembro de 2025

Apostas digitais crescem 734% e expõem epidemia silenciosa de vício no Brasil

Com mais de 17 milhões de apostadores e bilhões em transações mensais, especialistas alertam para os impactos sociais, econômicos e de saúde pública da dependência em jogos online

Jornalista: Luis Potenza MTb 37.357 | Com informações da Assessoria | Foto: Arquivo/Âncora1

Especialista alerta: vício em apostas digitais é problema coletivo, não individual
Especialista alerta: vício em apostas digitais é problema coletivo, não individual

O crescimento das apostas digitais no Brasil ultrapassou o entretenimento e se transformou em uma crise silenciosa. Segundo dados da Datahub, o setor online cresceu 734,6% entre 2021 e 2025, impulsionado por publicidade intensa e pela facilidade de acesso via aplicativos e plataformas digitais. O resultado é um aumento expressivo de casos de dependência, endividamento e sofrimento emocional que já afetam milhões de brasileiros.

De acordo com o Ministério da Fazenda, cerca de 17,7 milhões de pessoas realizaram apostas esportivas no primeiro semestre de 2025, enquanto as transações via PIX destinadas a plataformas de apostas chegaram a valores entre R$ 18 bilhões e R$ 21 bilhões por mês em 2024. O problema atinge principalmente jovens adultos: levantamento do DataSenado aponta que 56% dos apostadores têm entre 16 e 39 anos, sendo 62% homens.

Aposta e saúde mental

Os números revelam que o vício em apostas já se tornou uma questão de saúde pública. O Ministério da Previdência Social registrou 472 mil licenças médicas por transtornos mentais em 2024, o maior número da última década. Para Jezriel Francis, fundador da iniciativa Aposta Zero, o contexto exige uma resposta coletiva. “O vício em apostas não é um problema individual, mas o reflexo de um ambiente permissivo, que glamoriza o risco e estimula o comportamento compulsivo”, afirma.

A Organização Mundial da Saúde (OMS) já reconhece o vício em jogos como um transtorno associado à perda de controle e à repetição compulsiva. “Propagandas que prometem ganhos rápidos ativam os mesmos circuitos de prazer da dopamina observados em vícios químicos, levando o jogador a repetir a aposta em busca da sensação inicial de recompensa”, explica Francis em seu artigo.

Impactos financeiros e sociais

A dependência em apostas vai além do indivíduo. Dívidas de jogo afetam famílias inteiras, geram superendividamento e comprometem a produtividade no trabalho. O Banco Central estima que 77% das famílias brasileiras estão endividadas, o que agrava o impacto das perdas financeiras no orçamento doméstico. “Em um cenário de vulnerabilidade econômica, a promessa de dinheiro fácil se torna um gatilho perigoso”, alerta o especialista.

As consequências também recaem sobre empresas e o sistema de saúde. Segundo a OMS, o estresse relacionado ao trabalho gera perdas de mais de US$ 1 trilhão por ano na economia global. O vício em apostas, inserido nesse contexto, amplia quadros de ansiedade, depressão e esgotamento emocional.

Estratégias e políticas de prevenção

Para conter o avanço do problema, especialistas defendem políticas públicas e ferramentas de regulação semelhantes às aplicadas em outros países. Linhas de atendimento anônimas voltadas ao vício digital e financeiro poderiam oferecer acolhimento imediato, prevenindo quadros graves. Nas escolas e universidades, programas educativos ajudariam a reduzir a iniciação precoce, especialmente entre adolescentes.

“Ferramentas como autoexclusão, limites obrigatórios de depósito e alertas automáticos sobre tempo e valores jogados já são utilizadas com sucesso em países como Reino Unido, Espanha e Canadá. Adaptá-las à realidade brasileira seria um passo importante”, aponta Francis.

Essas medidas não têm o objetivo de proibir o jogo, mas de criar camadas de proteção social. Para o fundador da Aposta Zero, reconhecer o vício em apostas como fenômeno coletivo é essencial. “Não se trata de falha moral, e sim de um sistema que normaliza o risco e estimula a repetição. Só com regulação, educação, tecnologia e acolhimento será possível reduzir as perdas financeiras e emocionais que hoje se acumulam silenciosamente”, conclui.

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