Responsabilidade Social • 10:08h • 03 de março de 2026
Aquecimento do Atlântico potencializa eventos climáticos extremos
Especialistas explicam que o fenômeno afeta outros oceanos
Jornalista: Carolina Javera MTb 37.921 com informações de Agência Brasil | Foto: Arquivo Âncora1
O aumento constante da temperatura da superfície do Oceano Atlântico tem alterado o regime de chuvas no Brasil e contribuído para eventos extremos, como as fortes precipitações registradas recentemente no litoral paulista e em áreas de Minas Gerais.
De acordo com o meteorologista Marcelo Seluchi, do Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais, o aquecimento do Atlântico faz parte de uma tendência global que também atinge outros oceanos. A elevação da temperatura intensifica a evaporação, liberando grandes volumes de vapor d’água na atmosfera.
Segundo ele, há um efeito combinado: além dos oceanos mais quentes, a própria atmosfera está mais aquecida em razão das mudanças climáticas. Com isso, a umidade transportada pelos ventos — especialmente pelas frentes frias que avançam do oceano para o continente — encontra condições favoráveis para se transformar em chuvas intensas.
Nos últimos dias, em alguns pontos próximos à costa brasileira, a temperatura da água ficou até 3°C acima da média histórica para o período. Seluchi ressalta que variações de curto prazo podem ocorrer por fatores como correntes marítimas, mas destaca que o mais preocupante é a extensão das áreas com águas mais quentes. Quanto maior a mancha de calor no oceano, maior a quantidade de umidade lançada na atmosfera e, consequentemente, maior o potencial para precipitações volumosas.
Dados de monitoramento, incluindo registros de satélite da National Oceanic and Atmospheric Administration (Noaa), indicam que o aquecimento dos oceanos se acelerou nas últimas décadas. Estudo publicado na revista Advances in Atmospheric Sciences aponta que, em 2025, a temperatura média global dos oceanos atingiu novo recorde, impulsionada pelo aumento da concentração de gases de efeito estufa.
A professora Ilana Wainer, do Instituto Oceanográfico da Universidade de São Paulo, afirma que há amplo consenso científico de que o planeta e os oceanos vêm aquecendo desde meados do século XIX, com aceleração mais intensa a partir da década de 1980. Ela explica que esse cenário favorece a ocorrência de ondas de calor marinhas — fenômenos ainda em estudo — que, embora não provoquem sozinhas chuvas extremas, podem intensificá-las dependendo das condições atmosféricas.
Enquanto algumas regiões enfrentam temporais, outras lidam com estiagem e risco de escassez hídrica. Essa irregularidade na distribuição das chuvas também está ligada à degradação ambiental. Além da umidade oceânica, parte significativa do vapor d’água que alimenta as chuvas no país vem da Amazônia, por meio dos chamados “rios voadores” — correntes atmosféricas que transportam umidade da floresta para outras regiões.
Com o desmatamento e a substituição da vegetação nativa por pastagens, a evaporação diminui, reduzindo a oferta de umidade. Esse processo pode criar um ciclo em que chove menos porque o solo está seco, e o solo permanece seco porque chove pouco, agravando os extremos climáticos no país.
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