Saúde • 09:18h • 04 de julho de 2026
Atividade física ao longo da vida reduz risco de depressão na velhice, mostra estudo
Estudo que analisou dados de mais de 15 mil pessoas na meia-idade mostra que exercícios moderados, mesmo em baixa frequência, já oferecem proteção à saúde mental
Jornalista: Carolina Javera MTb 37.921 com informações de Agência SP | Foto: Arquivo Âncora1
Manter-se fisicamente ativo ao longo da vida pode reduzir de forma significativa o risco de desenvolver sintomas depressivos na velhice. A conclusão é de um estudo internacional que acompanhou mais de 15 mil pessoas com 50 anos ou mais durante até 12 anos no Reino Unido e nos Estados Unidos.
A pesquisa utilizou dados de dois grandes estudos sobre envelhecimento realizados nos dois países, com avaliações periódicas a cada dois anos. Segundo o pesquisador André de Oliveira Werneck, da Faculdade de Saúde Pública da USP, o objetivo foi investigar a relação entre atividade física e o surgimento de sintomas depressivos em idosos utilizando bases de dados comparáveis.
O trabalho foi desenvolvido durante um estágio de pesquisa no King's College London, com apoio da Fapesp. De acordo com Werneck, o longo período de acompanhamento permitiu analisar como mudanças nos hábitos ao longo dos anos influenciam a saúde mental, já que o nível de atividade física pode variar conforme o envelhecimento, o surgimento de doenças e alterações no estilo de vida.
Para tornar a análise mais precisa, os pesquisadores utilizaram uma metodologia chamada target trial emulation, que simula, por meio de técnicas estatísticas, os resultados de um ensaio clínico randomizado utilizando dados observacionais. O método reduz a influência de fatores como renda, doenças pré-existentes e outras características que poderiam distorcer os resultados.
Atividade moderada já faz diferença
Os pesquisadores analisaram dois cenários: praticar atividade física moderada ou vigorosa pelo menos duas vezes por semana, ou realizar ao menos um dia de atividade física vigorosa semanalmente. Nos dois casos, houve redução consistente no risco de sintomas depressivos entre os participantes dos Estados Unidos e do Reino Unido.
Entre os norte-americanos, a prática de atividades moderadas duas vezes por semana esteve associada a uma redução de cerca de 12% no risco de depressão, enquanto entre os ingleses a queda foi de aproximadamente 13%. Já a realização de atividade vigorosa ao menos uma vez por semana reduziu o risco em 13% nos Estados Unidos e em 16% no Reino Unido.
Segundo Werneck, os resultados mostram que exercícios de intensidade moderada oferecem benefícios semelhantes aos das atividades mais intensas para a saúde mental dos idosos. Caminhadas, jardinagem e outras atividades cotidianas já podem contribuir para reduzir o risco de depressão, sem a necessidade de treinos exaustivos.
Os pesquisadores também observaram que mesmo níveis de atividade física inferiores aos 150 minutos semanais recomendados pela Organização Mundial da Saúde já são capazes de gerar benefícios. Para Werneck, incentivar pessoas completamente sedentárias a incorporar algum movimento na rotina pode produzir ganhos importantes para a saúde mental.
A depressão é considerada um importante problema de saúde pública e afeta milhões de pessoas em todo o mundo. Entre os idosos, está associada ao aumento da mortalidade, agravamento de doenças crônicas, declínio cognitivo e maior risco de suicídio.
O professor Brendon Stubbs, do King's College London e orientador da pesquisa, destaca que a depressão nessa faixa etária muitas vezes é subdiagnosticada por ser confundida com um processo natural do envelhecimento. Segundo ele, a atividade física é uma das poucas intervenções capazes de promover benefícios simultaneamente para a saúde mental, física e funcional, com baixo risco e ampla acessibilidade.
Embora o estudo não tenha identificado um tipo específico de exercício como superior, tanto atividades aeróbicas quanto exercícios de força e movimentos funcionais apresentaram associação positiva com a saúde mental. Para os pesquisadores, o mais importante é escolher uma atividade compatível com a capacidade física e que possa ser mantida ao longo do tempo.
Outro ponto destacado é que a adesão contínua à prática de exercícios ainda representa o maior desafio. Por isso, os autores defendem estratégias que incorporem o movimento às atividades do dia a dia e estimulem a convivência social. Praticar exercícios em grupo, caminhar com outras pessoas ou participar de atividades comunitárias pode aumentar a motivação e favorecer a manutenção dos hábitos saudáveis.
Os pesquisadores afirmam que os resultados podem orientar políticas públicas voltadas ao envelhecimento saudável, com incentivo à prática regular de atividades físicas em serviços de saúde, espaços comunitários e ambientes urbanos que facilitem o movimento e a interação social entre os idosos.
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