Saúde • 09:19h • 06 de abril de 2025
Autismo: entenda os impactos do diagnóstico tardio em adultos
Dificuldades de convivência e poucos relacionamentos
Da Redação com informações de Agência Brasil | Foto: Tânia Rêgo/Agência Brasil
Desde a infância, a nutricionista Beatriz Lamper Martinez, de 48 anos, apresentava características marcantes que não encontravam explicação clara. Sua mãe a descrevia como uma criança excessivamente sensível e madura para a idade, envolvida emocionalmente com os problemas dos adultos. Ao longo da adolescência e da vida adulta, dificuldades na socialização, poucos amigos e desafios em manter relacionamentos foram constantes.
No entanto, apenas em setembro do ano passado, Beatriz recebeu o diagnóstico de transtorno do espectro autista (TEA). Antes disso, desde 2013, era tratada para depressão e ansiedade sem sucesso. “Mudava a medicação, aumentava a dosagem, mas eu nunca ficava estável”, relembra.
O ponto de virada veio quando se relacionou com o pai de uma criança autista. À medida que conhecia mais sobre o TEA, começou a perceber semelhanças com suas próprias experiências. “Passei meses pesquisando, lendo sobre o assunto, até decidir procurar um psiquiatra especializado”, conta. O diagnóstico clínico foi seguido por uma bateria de testes neuropsicológicos, que confirmaram a condição: autismo nível 1 de suporte, além de altas habilidades e um quociente de inteligência (QI) acima da média.
A descoberta tardia permitiu que Beatriz reinterpretasse sua trajetória e compreendesse melhor as crises que a acompanharam por décadas. “Por anos, achei que eram recaídas de depressão. Hoje sei que são crises ligadas ao autismo. Se estou exausta e preciso descansar, já não me culpo mais. O diagnóstico trouxe um alívio imenso.”
No entanto, a aceitação social nem sempre foi fácil. Entre seus familiares, apenas a irmã sabe do diagnóstico. No ambiente de trabalho, precisou solicitar mudanças de rotina devido à sensibilidade sensorial. Sua chefe compreendeu a necessidade e a transferiu para um setor mais tranquilo. “Ainda assim, a resistência das pessoas me surpreendeu. A sociedade não está preparada para lidar com isso.”
“Eu não era uma criança fresca, havia uma explicação”
A publicitária Cecilia Avila, de 24 anos, sempre teve extrema sensibilidade a sons e texturas. Na infância, tecidos ásperos e etiquetas de roupas a incomodavam profundamente. Durante a adolescência, teve dificuldades em entender piadas e ironias e sentia que não se encaixava socialmente.
Somente no ano passado, já adulta, Cecilia recebeu o diagnóstico de TEA. “Passei a vida mascarando comportamentos para parecer ‘normal’. Quando finalmente descobri a explicação, foi um alívio, mas também um choque.”
Ela destaca que múltiplos fatores contribuem para diagnósticos tardios, como a falta de informação, dificuldades financeiras e a resistência familiar. “Muitos pais só percebem que também são autistas quando seus filhos recebem o diagnóstico e eles se identificam com as características.”
Para Cecilia, o reconhecimento da condição traz uma mudança significativa na qualidade de vida. “Agora sei meus limites, entendo até onde posso ir em interações sociais, quanto tempo suporto certos estímulos. O diagnóstico, mesmo tardio, nos ajuda a compreender que não éramos crianças birrentas ou dramáticas, mas sim pessoas com necessidades específicas que passaram anos sem a devida compreensão.”
O impacto do diagnóstico tardio
O psicólogo Leandro Cunha explica que a falta de um diagnóstico adequado pode impactar negativamente diversas áreas da vida adulta, incluindo o desempenho acadêmico e profissional, os relacionamentos interpessoais e até a saúde mental. “Muitos adultos autistas passam anos sendo tratados para ansiedade e depressão sem que a causa real seja identificada”, afirma.
Ele destaca que o nível 1 de suporte, anteriormente chamado de “autismo leve”, pode dificultar o reconhecimento dos sinais, especialmente em mulheres, que tendem a desenvolver estratégias para mascarar suas dificuldades. Além disso, fatores culturais e o estigma social contribuem para a invisibilidade do TEA na vida adulta.
“O diagnóstico tardio é essencial para que essas pessoas finalmente compreendam suas dificuldades e encontrem apoio adequado. Sem isso, passam a vida lidando com desafios sem saber o motivo, o que pode gerar angústia e sofrimento desnecessários”, conclui.
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