Ciência e Tecnologia • 17:22h • 19 de setembro de 2026
Bagaço que sobra do vinho faz flores comestíveis terem até 250% mais betacaroteno
Pesquisa da Unicamp e da UFPR transformou resíduo da produção de vinho em biofertilizante e encontrou ganhos no desenvolvimento e na concentração de antioxidantes da calêndula
Jornalista: Luis Potenza MTb 37.357 | Com informações do Governo de SP | Foto: Arquivo/Âncora1
O bagaço de uva que sobra da produção de vinho e normalmente se transforma em resíduo ganhou uma nova função em pesquisa conduzida pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) em parceria com a Universidade Federal do Paraná (UFPR). Transformado em biofertilizante, o material favoreceu o desenvolvimento de flores comestíveis de calêndula e, em determinadas condições, fez a concentração de betacaroteno aumentar mais de 250% em relação ao cultivo convencional sem o resíduo.
A pesquisa utilizou a variedade calêndula pôr do sol (Calendula officinalis L.), uma flor comestível que possui compostos antioxidantes e desperta interesse das indústrias de alimentos e cosméticos. O estudo é resultado do doutorado de Luiz Eduardo Nochi Castro, da Faculdade de Engenharia de Alimentos da Unicamp, com bolsa da FAPESP, e foi publicado em junho na revista científica ACS Omega.
A escolha do bagaço também enfrenta um problema de escala da indústria vinícola. O material representa entre 20% e 25% da massa da uva processada e sua geração mundial é estimada entre 9 milhões e 13 milhões de toneladas por ano. Mesmo depois da fabricação do vinho, o resíduo ainda contém fibras, açúcares, compostos fenólicos, antioxidantes e pigmentos naturais.
Resíduo virou fertilizante líquido antes de chegar às flores
Os pesquisadores não aplicaram simplesmente o bagaço de uva nas plantas. Primeiro, o material foi submetido à digestão anaeróbia, processo no qual microrganismos decompõem matéria orgânica na ausência de oxigênio. O resultado foi um digestato líquido rico em nutrientes, utilizado como biofertilizante.
Durante 2023, diferentes doses foram aplicadas no cultivo da calêndula no verão e no inverno, combinadas a diferentes condições de irrigação. O objetivo era descobrir como quantidade de fertilizante, disponibilidade de água e clima poderiam interferir no crescimento e na qualidade das flores.
Depois da colheita, as calêndulas foram liofilizadas para preservar suas características e passaram por análises físico-químicas. Os pesquisadores também avaliaram folhas, raízes e a parte aérea das plantas.
Um dos resultados importantes foi justamente descobrir que mais biofertilizante não significa necessariamente uma planta melhor. As doses moderadas apresentaram os melhores resultados, enquanto quantidades excessivas prejudicaram o desenvolvimento, indicando a necessidade de equilíbrio na aplicação.
Sobra do vinho vira fertilizante e faz flor comestível ter até 250% mais betacaroteno
Betacaroteno chegou a 80,9 mg por 100 gramas
O efeito mais expressivo apareceu no experimento realizado durante o verão. As flores cultivadas com o digestato atingiram até 80,9 miligramas de betacaroteno por 100 gramas de flor liofilizada, concentração mais de 250% superior à registrada no cultivo convencional sem utilização do resíduo.
O betacaroteno é precursor da vitamina A e possui ação antioxidante. O biofertilizante também aumentou os níveis de compostos fenólicos totais e a atividade antioxidante das flores.
No inverno, os efeitos foram diferentes. Os pesquisadores observaram maior retenção de pigmentos e minerais, indicando que o aproveitamento do resíduo da produção de vinho pode modificar o perfil das flores mesmo sob condições climáticas distintas.
Da sobra do vinho para uma cadeia com menos desperdício
Os resultados ainda não significam que o biofertilizante esteja pronto para utilização comercial em grande escala. A equipe considera necessários novos estudos sobre viabilidade técnica e econômica, incluindo custos, logística e possibilidades de integração do processo a vinícolas ou empresas que já utilizem digestão anaeróbia para tratar resíduos.
Uma das próximas frentes de pesquisa busca extrair do material compostos de interesse, como antioxidantes, fenólicos, açúcares e pigmentos naturais, que poderiam ser utilizados como ingredientes em alimentos, cosméticos e outros produtos.
A proposta dos pesquisadores é ampliar ainda mais o aproveitamento do bagaço, incluindo a produção de energia e do biofertilizante usado no cultivo das flores. As próprias plantas e resíduos resultantes desse processo também poderão servir de matéria-prima para novos produtos, criando uma cadeia baseada nos princípios da economia circular.
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