Responsabilidade Social • 14:44h • 27 de julho de 2026
Barulho de barco e de turistas afeta comunicação de peixes, diz estudo
Poluição sonora pode impactar reprodução e alimentação de espécies
Jornalista: Carolina Javera MTb 37.921 com informações de Agência Brasil | Foto: Arquivo Âncora1
O ruído provocado por motores de embarcações, como lanchas e motos aquáticas, além da movimentação de banhistas, pode comprometer a comunicação entre os peixes e afetar comportamentos essenciais para sua sobrevivência, como alimentação, reprodução e defesa de território. A poluição sonora subaquática também representa um risco para a saúde dos recifes de corais.
A conclusão é de um estudo realizado por pesquisadores da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), publicado na revista científica Neotropical Ichthyology. A pesquisa identificou que o aumento do barulho causado pela atividade humana reduz a ocorrência dos sons emitidos pelos peixes em áreas de recifes.
Comunicação dos peixes é prejudicada
Segundo os pesquisadores, muitos peixes utilizam sons para localizar parceiros, disputar território, buscar alimento e se comunicar com outros indivíduos da mesma espécie. Em áreas com maior intensidade de ruídos produzidos por embarcações e atividades turísticas, houve uma redução significativa dessas vocalizações.
De acordo com o pesquisador Túlio Freire Xavier, do Laboratório de Pesquisa em Ictiologia e Ecologia de Recifes da UFPE, o barulho pode mascarar os sons produzidos pelos peixes ou levá-los a diminuir ou interromper a comunicação sonora, prejudicando comportamentos fundamentais para a sobrevivência das espécies.
Pesquisa analisou praias turísticas
O estudo foi realizado nas praias de Carneiros, na Área de Proteção Ambiental (APA) de Guadalupe, e de Tamandaré, na APA Costa dos Corais, em Pernambuco. As duas regiões foram escolhidas por apresentarem intenso turismo, mas com diferentes padrões de movimentação ao longo do ano.
Os pesquisadores instalaram equipamentos de gravação subaquática que registraram sons continuamente por dez horas diárias, totalizando 80 horas de monitoramento. Paralelamente, mergulhadores realizaram um levantamento das espécies presentes nos recifes, identificando entre 18 e 23 espécies de peixes.
As coletas ocorreram durante a alta temporada de verão e também em outro período do ano, permitindo comparar os efeitos da atividade humana sobre o ambiente marinho.
Redução da diversidade sonora
Ao todo, foram identificados nove tipos diferentes de sons produzidos pelos peixes. Três deles deixaram de ser registrados nas áreas mais expostas ao ruído humano.
Além da diminuição das vocalizações, os pesquisadores observaram redução da chamada complexidade acústica, indicador que mede a diversidade e a variação dos sons produzidos pela fauna ao longo do tempo.
Segundo os especialistas, o fenômeno ocorre devido ao mascaramento acústico, quando o ruído contínuo das embarcações encobre os sinais emitidos pelos peixes, e também pela supressão comportamental, situação em que os animais deixam de vocalizar por causa da poluição sonora.
Impactos para os recifes
Os pesquisadores destacam que os peixes recifais desempenham funções essenciais para o equilíbrio dos ecossistemas marinhos, contribuindo para o controle de algas, a manutenção dos corais e a estabilidade das cadeias alimentares.
Como esses ambientes também sustentam atividades econômicas, como o turismo e a pesca artesanal, alterações no comportamento das espécies podem afetar indiretamente os serviços ambientais oferecidos pelos recifes.
Embora a pesquisa tenha sido realizada no litoral de Pernambuco, os cientistas afirmam que situações semelhantes podem ocorrer em outros recifes brasileiros com intenso tráfego de embarcações, como Abrolhos e Fernando de Noronha.
Medidas para reduzir os impactos
Os pesquisadores ressaltam que ainda não existem parâmetros internacionais consolidados sobre níveis seguros de ruído para ambientes recifais. No entanto, defendem que o componente acústico passe a ser considerado no planejamento das atividades turísticas e de navegação.
Entre as medidas sugeridas estão a organização das rotas de embarcações, a redução da velocidade em áreas sensíveis e o controle da concentração de atividades sobre os recifes. Segundo os autores, preservar a paisagem sonora dos ambientes marinhos é uma forma de proteger o funcionamento dos ecossistemas e garantir os benefícios que eles oferecem à sociedade.
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