Variedades • 17:14h • 17 de julho de 2026
Bets não movimentam apenas dinheiro; elas também transformam relações, consumo e confiança
Especialista propõe ampliar o debate sobre apostas esportivas e alerta para reflexos na economia local, na publicidade e na convivência familiar
Coluna | Ana Clara Vasques Gimenez | Foto: Âncora1
Como advogada e pesquisadora, tenho observado com bastante preocupação o avanço das plataformas de apostas esportivas no Brasil.
E essa preocupação vai muito além da discussão sobre a legalidade da atividade, até porque, qualquer atividade pode se tornar lícita, ainda que imoral.
O que mais me chama a atenção é a forma como essas empresas têm ocupado espaços estratégicos na sociedade de maneira praticamente irrestrita.
Estão nos uniformes dos clubes, nas transmissões esportivas, nos programas de televisão, nas redes sociais, nos perfis de “influenciadores digitais” famosos e em ascensão, e, cada vez mais, na rotina de milhões de brasileiros e brasileiras.
Sob o discurso do entretenimento, cria-se uma cultura de normalização do risco financeiro. Nesse sentido, parece que apostar se tornou um hábito cotidiano, frequentemente estimulado por campanhas publicitárias altamente sofisticadas, que associam o jogo ao sucesso, ao lazer e à ascensão financeira.
Como profissional do Direito, entendo que a liberdade econômica é um valor constitucional importante. Entretanto, ela não pode ser confundida com ausência de responsabilidade social.
Toda atividade empresarial que produz impactos relevantes na coletividade deve assumir deveres proporcionais aos riscos que gera. Isso defendo e reforço com minhas pesquisas.
No entanto, o que também me preocupa é outro efeito econômico.
Cada real destinado às apostas deixa de circular na economia local. Deixa de ser investido no pequeno comércio, no restaurante do bairro, na loja de roupas, na padaria, na farmácia, na papelaria ou na prestação de serviços que efetivamente geram empregos, arrecadação tributária e desenvolvimento regional.
Os pequenos e médios empresários enfrentam diariamente aumento de custos, concorrência e elevada carga tributária. Ao mesmo tempo, assistem a uma parcela crescente da renda de seus potenciais clientes ser direcionada para plataformas cujo retorno econômico para a comunidade local é praticamente nulo.
Como pesquisadora, acredito que precisamos discutir esse fenômeno de forma muito mais ampla. Não apenas sob a ótica tributária ou regulatória, porque essa é só a primeira camada que, resolvida, só escancara ou vulnerabiliza as demais, contudo, precisamos discutir também seus impactos sociais, econômicos e psicológicos na população.
É preciso refletir sobre o equilíbrio entre liberdade de mercado, proteção do consumidor, publicidade responsável e preservação da economia real, que é aquela construída diariamente por empreendedores, comerciantes, profissionais liberais e trabalhadores que movimentam as cidades brasileiras.
Por exemplo. Nos últimos 60 dias, tanto no desenvolvimento das minhas pesquisas acadêmicas quanto na minha atuação como advogada, percebi um aumento significativo de casos de divórcio em que a gestão irresponsável dos recursos familiares, como gastos em plataformas de apostas, aparece como elemento relevante do conflito nas famílias.
Em diversos desses casos, surgem relatos de ocultação de despesas, do endividamento que compromete o patrimônio comum e resulta na perda da confiança entre os cônjuges. Essas situações podem caracterizar até mesmo formas de violência patrimonial.
Nesses casos o problema ultrapassa o dinheiro perdido e atinge a relação de confiança e a estabilidade familiar que levaram tempo para serem construídos em conjunto.
Confesso que esse cenário me desperta um sentimento de insegurança diante da velocidade com que esse fenômeno parece avançar. Ao mesmo tempo, mantenho a esperança de que ainda exista um caminho de reconstrução.
Talvez a resposta não esteja em novas leis ou em uma fiscalização mais rigorosa, embora ambas sejam importantes.
Acredito muito mais que esteja na reconexão das pessoas com aquilo que realmente faz sentido, como o tempo dedicado à família, às amizades verdadeiras, ao contato com a natureza, às conversas sem telas, ao cuidado com quem está ao nosso lado e à construção de relações com confiança e presença.
Esses valores não aparecem em propagandas, não prometem ganhos rápidos e não cabem em um aplicativo. Mas acredito firmemente que são eles que sustentam uma sociedade saudável. E, para mim, são infinitamente mais valiosos do que qualquer aposta que prometa riqueza instantânea.
Como dizia o poeta Manoel de Barros, em seu livro “Matéria de Poesia, de 1970":
A DESCOBERTA
Anos de estudo
e pesquisas:
Era no amanhecer
Que as formigas escolhiam seus vestidos.
Enfim. Não precisamos de muito, já temos o bastante. Basta fecharmos os olhos para enxergar.
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