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Responsabilidade Social • 09:21h • 29 de maio de 2026

Bolsa Família mudou destino de jovem da UnB e reacende debate após fala de Huck

História de estudante da UnB mostra como programa ajudou famílias a superar a pobreza e voltar ao mercado de trabalho; tema voltou ao centro das discussões após declaração de Luciano Huck sobre dependência social

Jornalista: Carolina Javera MTb 37.921 com informações de Agência Gov | Foto: Helano Stuckert/ MDS

A estudante Gabrielly Gomes tem 19 anos, mora com os pais, em Santa Maria, no Distrito Federal.
A estudante Gabrielly Gomes tem 19 anos, mora com os pais, em Santa Maria, no Distrito Federal.

A trajetória da estudante Gabrielly Gomes, de 19 anos, ajuda a ilustrar os impactos do Bolsa Família na vida de milhões de brasileiros e reacende um debate que ganhou força recentemente após declarações do apresentador Luciano Huck sobre programas de transferência de renda.

Moradora de Santa Maria, no Distrito Federal, Gabrielly é filha da primeira geração de beneficiários do Bolsa Família. Hoje universitária do curso de Gestão de Políticas Públicas da Universidade de Brasília (UnB), ela cresceu em uma família que dependia do auxílio para complementar a renda do pai, um marceneiro autônomo.

Criado em 2003, o programa passou a fazer parte da rotina da família quando as condições financeiras eram mais difíceis. O pai de Gabrielly, Vilmar Manoel Gomes, lembra que o benefício foi fundamental para garantir alimentação, roupas e materiais escolares para os filhos.

Segundo ele, a renda variava muito por trabalhar de forma autônoma e, com crianças pequenas em casa, as despesas eram altas. O Bolsa Família ajudou a família a atravessar esse período de maior vulnerabilidade.

Com o passar dos anos, os filhos cresceram, começaram a trabalhar e a renda familiar aumentou. Em 2012, a família deixou de receber o benefício.

Vilmar afirma que saiu do programa no momento em que percebeu que outras pessoas precisavam mais da ajuda. A mãe de Gabrielly, Clevia Gomes, também relembra que o benefício trouxe segurança em uma fase delicada da vida da família.

A história vai na contramão de críticas frequentes de que programas sociais gerariam acomodação ou dependência permanente. O tema voltou à tona recentemente após Luciano Huck afirmar, durante entrevista e debates públicos sobre pobreza e desigualdade, que o país precisa discutir formas de garantir inclusão produtiva e evitar que famílias permaneçam dependentes de auxílios sociais por longos períodos.

As declarações provocaram repercussão nas redes sociais e dividiram opiniões. Enquanto parte do público concordou com a necessidade de ampliar oportunidades de emprego e autonomia financeira, outros criticaram a fala por considerarem que ela reforça estigmas contra beneficiários do programa.

Pesquisas recentes, porém, mostram que grande parte das famílias deixa o Bolsa Família após melhora de renda. Um levantamento divulgado em 2023 por pesquisadores do Instituto Mobilidade e Desenvolvimento Social (IMDS), da Fundação Getulio Vargas (FGV), do Oppen Social e da Università Bocconi apontou que a maioria das crianças e adolescentes beneficiários do programa em 2005 saiu do Cadastro Único e ingressou no mercado formal de trabalho anos depois.

Dos 11,6 milhões de beneficiários entre sete e 16 anos registrados em 2005, cerca de 7,45 milhões haviam deixado o Cadastro Único até 2019. Apenas 2,37 milhões permaneciam vinculados ao programa naquele período.

Gabrielly acredita que a experiência da própria família influenciou diretamente sua escolha profissional. Segundo ela, crescer acompanhando o impacto das políticas sociais despertou o desejo de atuar na área pública para ajudar outras famílias.

Ela lembra que a mãe administrava cuidadosamente o dinheiro do benefício, priorizando alimentação, roupas, calçados e materiais escolares. Também recorda do acompanhamento exigido pelo programa nas áreas de saúde e educação, como vacinação, pesagem e frequência escolar.

As chamadas condicionalidades são uma das bases do Bolsa Família. Para permanecer no programa, as famílias precisam manter crianças e adolescentes frequentando regularmente a escola e cumprir o calendário de vacinação e acompanhamento de saúde.

Gabrielly conta que muitas famílias do bairro onde morava, em Santo Antônio do Descoberto (GO), também recebiam o benefício. Hoje, segundo ela, vários amigos da infância conseguiram chegar à universidade e construir caminhos de autonomia financeira.

Para a estudante, o Bolsa Família representou uma “virada de chave” para milhares de famílias que conseguiram superar situações de extrema vulnerabilidade ao longo das últimas duas décadas.

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