Ciência e Tecnologia • 15:11h • 15 de dezembro de 2025
Brasil cria primeiro banco genômico de referência para espécies da fauna e da flora
Plataforma pública lançada durante a COP 30 reúne dados genéticos de espécies brasileiras e busca fortalecer a conservação e a bioeconomia
Jornalista: Luis Potenza MTb 37.357 | Com informações da Assessoria | Foto: Divulgação
O Brasil deu um passo inédito ao lançar o primeiro banco genômico de referência dedicado exclusivamente às espécies da fauna e da flora nacionais. O Banco de Referências Genômicas de Espécies Brasileiras, GenRefBR, foi apresentado durante a COP 30, em Belém, como uma plataforma pública e gratuita que reúne dados genéticos para reduzir a dependência de repositórios internacionais e ampliar a visibilidade da biodiversidade brasileira no cenário científico global.
O GenRefBR integra o consórcio Genômica da Biodiversidade Brasileira, GBB, uma parceria público-privada entre o Instituto Tecnológico Vale e o Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade. A iniciativa tem como foco apoiar pesquisas científicas, embasar políticas de conservação e abrir novas possibilidades para o desenvolvimento da bioeconomia, a partir do conhecimento aprofundado do patrimônio genético nacional.
Segundo a pesquisadora de genômica ambiental do Instituto Tecnológico Vale, Gisele Nunes, a ausência de um banco nacional sempre foi um entrave para a pesquisa. Ela explica que, até agora, pesquisadores brasileiros precisavam recorrer a bases de dados de outros países para estudar o DNA de espécies nativas, muitas vezes sem garantia de que o material genético representasse, de fato, populações brasileiras.
Além da criação do banco, o laboratório criativo Mata N’Ativa lançou uma história interativa que apresenta os bastidores do desenvolvimento do GenRefBR e o trabalho dos pesquisadores envolvidos. Também foram publicadas reportagens que abordam o impacto do consórcio na conservação de espécies ameaçadas e na descoberta de novas formas de vida, conteúdos que podem ser republicados mediante crédito.
A construção do GenRefBR envolve desde a consolidação de dados genômicos já existentes em bases internacionais até a coleta de novas amostras em campo. Para espécies prioritárias que ainda não possuem genoma publicado, os pesquisadores mapearam estudos em andamento no Brasil e, quando necessário, iniciaram o processo do zero, com expedições e coleta direta. As espécies incluídas são organizadas em quatro eixos, conservação, espécies exóticas invasoras, espécies ameaçadas e aquelas com potencial para a bioeconomia.
A meta do consórcio é produzir ao menos 80 genomas de referência completos, que representam o mapa genético detalhado de uma espécie, além de 1.000 genomas populacionais, voltados à análise da diversidade genética, e 1.600 códigos de barras de DNA, sequências curtas usadas como identificadores únicos. As amostras passam por extração, sequenciamento e análise bioinformática no laboratório do Instituto Tecnológico Vale, em Belém, até se transformarem em dados acessíveis ao público científico.
Um dos exemplos práticos do uso do banco envolve a saíra-apunhalada, ave criticamente ameaçada, com cerca de 20 indivíduos conhecidos na natureza. Restrita a áreas de Mata Atlântica no Espírito Santo, a espécie sofre forte pressão ambiental. Com o genoma populacional produzido pelo GBB, pesquisadores identificaram conexão genética entre duas populações separadas por cerca de 80 quilômetros, informação que pode orientar ações como a criação de corredores ecológicos para garantir o fluxo gênico.
Esses dados também passam a subsidiar decisões dentro do ICMBio, como os Planos de Ação Nacionais de Conservação, que definem medidas práticas de proteção, manejo de habitat e, quando necessário, reprodução em cativeiro. A base genética oferece maior segurança técnica para a tomada de decisões e priorização de esforços.
O banco genômico também dialoga com a taxonomia, área responsável por identificar e nomear as espécies. Pesquisadores destacam que, sem nome científico, não há reconhecimento legal nem possibilidade de proteção. A integração entre genômica e taxonomia é considerada essencial para interpretar corretamente os dados moleculares e transformar informação científica em políticas efetivas de conservação.
Ao reunir dados genéticos, informações sobre biomas e riscos de extinção em uma plataforma nacional, o GenRefBR se posiciona como uma ferramenta estratégica para a ciência brasileira, com potencial de fortalecer a proteção da biodiversidade e ampliar o protagonismo do país em pesquisas sobre conservação e uso sustentável dos recursos naturais.
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