Responsabilidade Social • 14:15h • 20 de maio de 2026
Brasil cria primeiro índice que mede desigualdade econômica com raça e gênero juntos
Levantamento inédito mostra que mulheres negras permaneceram abaixo da média nacional em todos os anos analisados entre 2016 e 2023
Jornalista: Luis Potenza MTb 37.357 | Com informações da Trama Assessoria | Foto: Arquivo/Âncora1
O Brasil passou a contar com um novo indicador voltado à medição das desigualdades econômicas com recorte simultâneo de raça e gênero. Lançado pelo Fundo Agbara em parceria com a ActionAid Brasil e a Fundação Volkswagen, o Índice de Justiça Econômica Racial (IJER) revelou que a estrutura das desigualdades no país praticamente não mudou entre 2016 e 2023, mesmo diante de avanços pontuais registrados no período.
Apresentado durante o 1º Fórum Econômico de Mulheres Negras, realizado em 14 de maio, o estudo combina dados de educação, trabalho, renda e moradia em uma única métrica, construída desde o início com abordagem interseccional. O objetivo é medir como raça e gênero influenciam conjuntamente o acesso à chamada justiça econômica.
O índice varia de 0 a 1. Quanto mais próximo de 1, maior o acesso a condições econômicas consideradas mais favoráveis. Em 2023, homens brancos registraram índice de 0,69. Mulheres brancas e homens negros apareceram empatados com 0,60, enquanto mulheres negras tiveram 0,53. A média nacional foi de 0,59.
Segundo o levantamento, mulheres negras foram o único grupo que permaneceu abaixo da média brasileira durante todos os sete anos analisados. A distância em relação aos homens brancos chegou a 0,16 ponto e não apresentou redução estrutural no período.
Outro dado destacado pelo estudo é que mulheres brancas mantiveram índice superior ao de homens negros ao longo de toda a série histórica, apontando que raça e gênero produzem impactos combinados na distribuição de oportunidades econômicas.
“A desigualdade econômica no Brasil tem cor e gênero, e está diretamente ligada a um modelo que se sustenta na desvalorização histórica do trabalho e da vida das mulheres negras”, afirma Priscila Soares, coordenadora de pesquisa no Fundo Agbara.
O diferencial do IJER está justamente na metodologia utilizada. Diferentemente de indicadores tradicionais, como IDH ou índice de Gini, o novo levantamento não analisa apenas renda ou desenvolvimento de forma geral, mas observa como esses resultados se distribuem entre diferentes grupos sociais.
A proposta é que o índice seja atualizado anualmente para acompanhar a evolução das desigualdades e auxiliar na avaliação de políticas públicas. Os dados usados no estudo ajudam a dimensionar o cenário. Em 2023, a taxa de desocupação entre mulheres negras foi de 10,8%, mais que o dobro da registrada entre homens brancos, que ficou em 4,8%.
Já a renda domiciliar per capita média das mulheres negras foi de R$ 1.402,18, menos da metade dos R$ 2.844,21 registrados entre homens brancos. “Não se trata apenas de acesso ao trabalho, mas da qualidade dessas oportunidades. As mulheres negras seguem concentradas em posições mais vulneráveis e com menor retorno econômico”, afirma Iracema Souza, gerente de Conhecimento e Advocacy do Fundo Agbara.
O levantamento também identificou diferenças regionais importantes. Nos estados do Sul, Sudeste e parte do Centro-Oeste, os índices gerais são mais altos, mas mesmo nessas regiões as mulheres negras não alcançam a média nacional do indicador.
Já no Norte e Nordeste, onde os índices são menores para todos os grupos, as desigualdades aparecem de forma ainda mais intensa. Para os pesquisadores, os resultados colocam em debate a efetividade de políticas públicas universalistas sem recortes específicos de raça e gênero. Segundo o estudo, medidas sem esse direcionamento tendem a beneficiar de forma desproporcional grupos que já ocupam posições mais favorecidas.
O IJER foi desenvolvido para servir como ferramenta de monitoramento contínuo voltada a gestores públicos, pesquisadores, organizações sociais e instituições nacionais e internacionais interessadas em acompanhar indicadores de desigualdade econômica no Brasil.
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