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Ciência e Tecnologia • 10:51h • 01 de setembro de 2026

Brasil desenvolve vacina contra dependência de nicotina que tenta impedir droga de chegar ao cérebro

Pesquisa do Cristália está em estágio inicial e busca fazer o sistema imunológico produzir anticorpos capazes de neutralizar a nicotina antes que ela ative o mecanismo de recompensa

Da Redação | Com informações da CFF | Foto: Divulgação

Vacina brasileira contra nicotina avança em animais, mas ainda terá longo caminho até chegar aos pacientes
Vacina brasileira contra nicotina avança em animais, mas ainda terá longo caminho até chegar aos pacientes

Uma vacina para ajudar pessoas a não voltarem a fumar após abandonar o cigarro. Essa é a proposta de uma pesquisa inédita no Brasil conduzida pelo Laboratório Cristália, em Itapira, no interior de São Paulo. O projeto tenta desenvolver uma imunização contra a dependência de nicotina, mas ainda está em Early Discovery, etapa inicial dedicada à seleção de protótipos e à prova de conceito em modelos animais.

A estratégia é diferente dos tratamentos que substituem a nicotina ou ajudam a controlar sintomas da abstinência. A candidata a vacina pretende estimular o organismo a produzir anticorpos específicos contra a nicotina, capturando a substância ainda na corrente sanguínea e dificultando sua chegada ao cérebro.

Isso é importante porque a nicotina alcança rapidamente o cérebro e ativa receptores relacionados à liberação de dopamina e ao sistema de recompensa. “Nossa vacina foi concebida para interromper esse ciclo ao impedir que a nicotina chegue ao cérebro em quantidade suficiente para ativar esse mecanismo”, explica o médico Ogari Pacheco, fundador e presidente do Conselho Diretivo do Cristália e idealizador do projeto iniciado internamente em maio de 2024.

A ideia é reduzir justamente o efeito que favorece a recaída

A dependência continua sendo um dos grandes obstáculos para quem tenta abandonar o cigarro. Segundo dados citados pelo projeto, aproximadamente 85% das pessoas que tentam parar de fumar recaem no primeiro ano, enquanto dois terços voltam ao cigarro nas duas primeiras semanas.

É nesse ponto que os pesquisadores esperam que a imunização possa atuar. Se os anticorpos reduzirem a quantidade de nicotina que chega ao cérebro, a expectativa é diminuir o efeito associado ao prazer que reforça o consumo e, consequentemente, ajudar na prevenção de recaídas.

A dimensão do problema explica o interesse por novas estratégias. A Organização Mundial da Saúde (OMS) estima que o tabaco provoque cerca de 8 milhões de mortes por ano no mundo, incluindo aproximadamente 1,3 milhão relacionadas ao fumo passivo.

Outras vacinas contra nicotina já fracassaram

Apesar da proposta inovadora no Brasil, a tentativa de criar uma vacina contra a dependência não é nova no mundo. Um dos projetos que chegou mais longe foi a NicVAX, desenvolvida pela Nabi Biopharmaceuticals. A candidata avançou até estudos clínicos de fase 3, mas resultados divulgados em 2011 não demonstraram eficácia superior ao placebo em larga escala, e o programa acabou encerrado.

O histórico mostra também o tamanho do desafio que a pesquisa brasileira terá pela frente. Segundo o Cristália, antígenos sintéticos desenvolvidos pela empresa já apresentaram em testes com animais capacidade de induzir anticorpos específicos e impedir o comportamento aditivo. Os dados estão sendo compilados para um pedido de patente e, de acordo com o laboratório, a publicação científica ocorrerá depois dessa etapa.

Ainda há um longo caminho antes de chegar aos pacientes

Os resultados iniciais não significam que exista uma vacina pronta para uso. O projeto ainda precisará passar por etapas de desenvolvimento, estudos pré-clínicos completos de segurança e, posteriormente, ensaios clínicos em seres humanos antes de uma eventual solicitação de registro à Anvisa.

Também não se trata de substituir as abordagens atualmente utilizadas para abandonar o cigarro. A proposta do laboratório é que a tecnologia possa futuramente complementar o tratamento, especialmente na prevenção das recaídas.

Por enquanto, a pesquisa brasileira tenta responder a uma pergunta que outros projetos internacionais ainda não conseguiram transformar em solução disponível aos pacientes: é possível ensinar o sistema imunológico a bloquear a nicotina de maneira suficientemente eficaz para ajudar no tratamento da dependência?

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