Ciência e Tecnologia • 19:41h • 09 de janeiro de 2026
Brasileiros publicam maior estudo do mundo sobre sequelas do zika em crianças
Pesquisa com mais de 800 casos aprofunda a compreensão da microcefalia associada ao vírus e amplia respostas para o sistema público de saúde
Jornalista: Luis Potenza MTb 37.357 | Com informações da Agência Brasil | Foto: Arquivo/Âncora1
Pesquisadores de diferentes estados e instituições brasileiras publicaram, no fim de 2025, o maior estudo já realizado no mundo sobre os efeitos do vírus zika na infância. A pesquisa analisou dados de 843 crianças brasileiras com microcefalia, nascidas entre janeiro de 2015 e julho de 2018, e permitiu avanços importantes na descrição da microcefalia associada à infecção durante a gestação.
O trabalho foi conduzido pelo Consórcio Brasileiro de Coortes de Zika, que reuniu informações de 12 centros de pesquisa das regiões Norte, Nordeste e Sudeste do país. O estudo foi publicado em 29 de dezembro de 2025 no periódico científico PLOS Global Public Health, especializado em saúde pública.
Segundo a pesquisadora Maria Elizabeth Lopes Moreira, do Instituto Nacional de Saúde da Mulher, da Criança e do Adolescente Fernandes Figueira, da Fiocruz, não há registros anteriores de pesquisas com um número tão expressivo de crianças acompanhadas. O volume da amostra permitiu uniformizar dados, revisar informações primárias e definir com maior precisão o espectro da microcefalia causada pelo zika vírus.
O Brasil concentrou a maior epidemia de microcefalia associada ao zika no mundo, especialmente entre 2015 e 2016. Até então, a caracterização da Síndrome Congênita do Zika se baseava, em grande parte, em séries de casos menores ou estudos isolados. Com a nova análise, os pesquisadores conseguiram identificar diferentes níveis de gravidade e manifestações clínicas dentro do grupo de crianças afetadas.
Um dos achados centrais do estudo foi a identificação de uma morfologia específica da microcefalia associada ao zika. Diferentemente de outras causas, em muitos casos o cérebro da criança apresentava desenvolvimento inicial normal e, posteriormente, passava por um processo de destruição celular e colapso estrutural, afetando também a formação óssea do crânio. Esse padrão foi associado a distúrbios neurológicos, auditivos e visuais, além de alta incidência de epilepsia de difícil controle.
Entre os principais resultados, o levantamento apontou microcefalia ao nascimento em 71,3% dos casos, sendo 63,9% considerados graves. Outros 20,4% desenvolveram microcefalia no período pós-natal. Também foram observados prematuridade, baixo peso ao nascer e malformações congênitas, como epicanto, occipital proeminente e excesso de pele no pescoço. Alterações neurológicas frequentes incluíram déficit de atenção social, epilepsia e persistência de reflexos primitivos. Exames de neuroimagem identificaram calcificações cerebrais, ventriculomegalia e atrofia cortical em grande parte das crianças analisadas.
Dados também revelam um impacto social expressivo
Cerca de 30% das crianças acompanhadas já morreram. As sobreviventes, hoje com idades entre 8 e 10 anos, enfrentam dificuldades significativas de inclusão escolar, especialmente nos casos de comprometimento neurológico mais grave. Mesmo aquelas sem microcefalia ao nascer podem apresentar atrasos no desenvolvimento, o que reforça a necessidade de acompanhamento contínuo.
Os pesquisadores destacam que não existe tratamento específico para o zika vírus. Por isso, as recomendações seguem focadas na prevenção da infecção durante a gestação e, após o nascimento, no início imediato da estimulação precoce. Fisioterapia, fonoaudiologia e outras formas de estimulação são consideradas essenciais para melhorar o prognóstico, aproveitando a capacidade de neuroplasticidade da criança.
Estudo também reforça a importância de políticas públicas permanentes
Crianças afetadas pela Síndrome Congênita do Zika demandam cuidados ao longo de toda a vida, com acompanhamento multidisciplinar e acesso contínuo ao Sistema Único de Saúde. Segundo os pesquisadores, o levantamento amplia a capacidade do sistema público de saúde de planejar ações, estruturar serviços e oferecer respostas mais adequadas às famílias impactadas pela epidemia.
Após a publicação, o consórcio seguirá acompanhando essas crianças, com foco nos impactos do zika na vida escolar e no neurodesenvolvimento. A geração nascida entre 2015 e 2018 deverá ser observada de forma mais atenta pela pediatria e pela rede de saúde, para que atrasos no desenvolvimento sejam identificados e tratados o mais cedo possível.
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