Saúde • 14:14h • 17 de janeiro de 2026
Butantan e empresa dos EUA desenvolvem terapia inédita contra febre amarela
Medicamento MBL-YFV-01 será indicado como tratamento da doença para moradores de áreas endêmicas que não foram vacinados e acabaram sendo infectados
Jornalista: Carolina Javera MTb 37.921 com informações de Agência SP | Foto: Arquivo Âncora1
O Instituto Butantan firmou uma parceria estratégica com a empresa de biotecnologia Mabloc, sediada em Washington (EUA), para co-desenvolver e produzir o MBL-YFV-01, uma terapia inovadora à base de anticorpos monoclonais para tratar a infecção pelo vírus da febre amarela. O medicamento será destinado principalmente a moradores de áreas endêmicas que não foram vacinados e acabaram infectados.
O acordo surge em meio ao aumento recente de surtos no Brasil, com casos confirmados em São Paulo, Minas Gerais e Espírito Santo. Embora exista uma vacina eficaz, milhões de pessoas permanecem vulneráveis devido à baixa cobertura vacinal — e não há, até hoje, um tratamento específico para pacientes já expostos ao vírus.
Segundo o diretor de Inovação e Licenciamento de Tecnologia do Butantan, Cristiano Gonçalves, a iniciativa reforça a missão do instituto de desenvolver soluções de alto impacto social. Ele destaca que, enquanto o mercado costuma priorizar terapias de maior retorno financeiro, o Butantan direciona esforços a doenças negligenciadas e de risco epidemiológico.
A Mabloc, especializada em anticorpos monoclonais guiados por inteligência artificial, detém patentes e licenças de moléculas altamente específicas para neutralização viral. O MBL-YFV-01 foi descoberto por meio da plataforma BRAID™, que utiliza IA para identificar e otimizar rapidamente anticorpos promissores. Em estudo com modelos animais publicado em 2023 na Science Translational Medicine, uma única dose de 50 mg/kg controlou completamente a viremia e preveniu quadros graves e mortes.
Para Michael Ricciardi, diretor de Desenvolvimento de Produtos da Mabloc, o diferencial da terapia é sua capacidade de atuar na fase aguda da doença. Ele afirma que a parceria com o Butantan permitirá acelerar estudos clínicos e responder rapidamente a surtos. Caso aprovado, o MBL-YFV-01 será o primeiro medicamento específico para o tratamento da febre amarela.
A tecnologia de anticorpos monoclonais já é utilizada no combate a doenças infecciosas, autoimunes e cancerígenas, com baixo índice de efeitos colaterais. O Butantan possui infraestrutura para pesquisa e produção desses medicamentos, incluindo um laboratório e uma fábrica dedicados.
Pelo acordo firmado, o instituto recebe licença exclusiva para desenvolver e futuramente comercializar a terapia em países de baixa e média renda. Para Gonçalves, o projeto reforça a capacidade brasileira de dominar rotas tecnológicas avançadas e ampliar a soberania científica em áreas pouco exploradas pela indústria.
A relevância clínica da nova terapia é reforçada por evidências recentes. Um estudo publicado em 2019 no The Lancet Infectious Diseases mostrou que pacientes com febre amarela que apresentavam alta carga viral e neutrófilos elevados tinham 100% de mortalidade durante a hospitalização. O MBL-YFV-01, ao reduzir a carga viral, pode se tornar uma ferramenta importante para diminuir mortes em casos graves.
A febre amarela segue sendo uma preocupação nas Américas. Segundo a Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS), 47 países têm áreas endêmicas e, só até maio de 2025, foram notificados 235 casos e 96 mortes na região — sendo 111 casos e 44 óbitos registrados no Brasil. A OPAS destaca que, nos últimos anos, a doença avançou para além da região amazônica, com registros recentes em São Paulo e na Colômbia.
No Brasil, o ciclo atual é silvestre, transmitido pelos mosquitos Haemagogus e Sabethes. Os sintomas iniciais incluem febre, dores musculares, náusea e vômito, que costumam regredir em poucos dias. Cerca de 20% dos casos evoluem para a forma grave, caracterizada por icterícia, urina escura, dor abdominal intensa e sangramentos. A vacinação — disponível gratuitamente pelo SUS — segue como principal forma de prevenção.
A OPAS também alerta que viajantes não vacinados podem transportar o vírus para países livres da doença, o que leva muitas nações a exigirem comprovante de vacinação para entrada de pessoas vindas de áreas endêmicas.
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