Variedades • 18:22h • 07 de janeiro de 2026
Cansaço crônico e imediatismo explicam dilemas emocionais das gerações X e Z
Especialista explica como padrões de cansaço crônico e imediatismo se formam e aponta caminhos para interromper ciclos nocivos
Jornalista: Luis Potenza MTb 37.357 | Com informações da SemFronteiras Assessoria | Foto: Arquivo/Âncora1
O mês de Janeiro Branco, dedicado à conscientização sobre saúde mental, reacende um debate que atravessa gerações. De um lado, adultos da geração X convivem com exaustão emocional prolongada. De outro, jovens da geração Z enfrentam ansiedade e pressão constante por respostas imediatas. Embora distintos, os dois grupos compartilham desafios que ajudam a explicar o aumento dos adoecimentos psíquicos no país.
A geração X, formada por pessoas nascidas entre 1965 e 1980, atravessou profundas transformações sociais, econômicas e tecnológicas. Hoje, muitos acumulam múltiplos papéis: seguem ativos no mercado de trabalho, cuidam de filhos que permanecem mais tempo em casa e, ao mesmo tempo, de pais idosos que vivem mais. Esse acúmulo de responsabilidades ajuda a explicar por que o grupo passou a ser chamado de “geração do cansaço”.
Segundo a psicóloga Soraya Oliveira, que atende no Órion Complex, o esgotamento vivenciado por essa geração vai além do corpo. Trata-se de um cansaço existencial, associado à sensação de que não dar conta de tudo representa uma falha pessoal, e não o resultado de um sistema altamente exigente. Os efeitos aparecem em sintomas como ansiedade generalizada, episódios depressivos, culpa constante e dificuldade de reconhecer sinais de sofrimento, muitas vezes expressos por meio de somatizações.
Entre mulheres da geração X, o peso tende a ser ainda maior. A especialista observa que responsabilidades como cuidado de pais idosos, organização do lar e sustentação emocional da família costumam ser vividas como obrigações morais. Esse cenário revela desigualdades de gênero persistentes e contribui para a sensação de invisibilidade e para o esgotamento emocional prolongado.
Para Soraya, romper esse ciclo não depende apenas de força de vontade. A mudança exige um reposicionamento subjetivo e relacional, que envolve conflitos internos, culpa inicial e perdas simbólicas. Superadas essas etapas, os ganhos aparecem na forma de relações mais equilibradas, envelhecimento com menos ressentimento e maior presença emocional. A geração X, segundo ela, precisa aprender que o sacrifício constante não pode ser a única forma de existir.
Desafios da geração Z
No outro extremo etário está a geração Z, formada por pessoas nascidas a partir de meados da década de 1990 até 2012. Conhecidos como nativos digitais, esses jovens cresceram em um ambiente hiperconectado, com acesso contínuo a informações, estímulos e comparações. O resultado é um perfil marcado por agilidade e polivalência, mas também por uma relação tensa com o tempo, o que levou o grupo a ser associado ao imediatismo.
A psicóloga explica que o comportamento imediato não é fruto de escolha, mas de um contexto que pouco ensina a esperar. O imediatismo funciona como estratégia de regulação da ansiedade em um mundo instável e excessivamente estimulante. Sem mediação psíquica, porém, essa adaptação se transforma em fragilidade emocional, esgotamento e sensação permanente de urgência.
O desafio clínico e social, segundo a especialista, está em reconstruir a experiência do tempo, do vínculo e do sentido, sem demonizar a tecnologia ou romantizar o sofrimento das gerações anteriores. Para interromper esse ciclo, a paciência precisa ser aprendida, mesmo que o desconforto inicial faça parte do processo. A geração Z não precisa se tornar mais lenta, mas menos refém da urgência. Ao aprender a esperar, ganha profundidade, sentido e proteção emocional.
No contexto do Janeiro Branco, a reflexão intergeracional ajuda a compreender que o adoecimento emocional não surge isoladamente. Ele é construído a partir de padrões culturais, expectativas sociais e formas distintas de lidar com o tempo, o trabalho e os vínculos. Reconhecer essas diferenças é um passo importante para promover cuidado em saúde mental de forma mais consciente e preventiva.
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