Saúde • 15:01h • 13 de julho de 2026
Celular vira aliado no acompanhamento da epilepsia e ajuda a organizar histórico de crises
Tecnologias digitais organizam frequência, duração e possíveis gatilhos dos episódios e podem ampliar a compreensão médica sobre o período entre um atendimento e outro
Jornalista: Luis Potenza MTb 37.357 | Com informações da Mention | Foto: Arquivo/Âncora1
A rotina de pessoas com epilepsia começa a ganhar um novo tipo de acompanhamento fora dos consultórios. Aplicativos e plataformas digitais permitem registrar crises, organizar informações clínicas e reunir dados sobre o cotidiano dos pacientes entre as consultas, ampliando o volume de informações disponíveis para avaliação médica. A transformação ocorre em um cenário de cerca de 50 milhões de pessoas vivendo com a condição no mundo e aproximadamente 3 milhões no Brasil, segundo a Organização Mundial da Saúde.
Um dos desafios históricos no acompanhamento da epilepsia é reconstruir com precisão o que aconteceu ao longo de semanas ou meses. Frequência, duração e possíveis gatilhos das crises são informações relevantes para as decisões terapêuticas, mas nem sempre são lembradas em detalhes durante uma consulta.
Para a médica neurofisiologista clínica Kamylla Thiago de Almeida, especializada em epilepsia e cofundadora da ICTAL, registros estruturados podem melhorar a compreensão sobre a evolução clínica. “Durante muito tempo, o acompanhamento dependeu quase exclusivamente da memória do paciente ou de anotações informais, o que limita a compreensão da evolução clínica. Quando os dados passam a ser registrados de forma organizada e contínua, o neurologista consegue identificar padrões e ajustar o tratamento com maior segurança”, afirma.
O que aconteceu entre uma consulta e outra?
A digitalização permite transformar episódios distribuídos ao longo da rotina em um histórico organizado. Em vez de depender apenas da lembrança do paciente ou dos familiares no dia do atendimento, os registros podem ajudar a apresentar ao neurologista uma sequência mais estruturada das informações.
Iniciativas brasileiras, como o aplicativo Diário de Crises da ICTAL, integram esse movimento ao buscar aproximar pacientes e especialistas por meio da organização de dados. A proposta é facilitar a comunicação clínica e oferecer mais contexto para a avaliação médica.
O avanço acompanha uma transformação mais ampla da saúde digital. Estudos científicos internacionais publicados entre 2023 e 2024 também investigam o uso de inteligência artificial na análise de exames neurológicos, incluindo o eletroencefalograma.
Tecnologia amplia dados, mas não substitui avaliação médica
O crescimento dessas ferramentas também abre discussões sobre privacidade, segurança das informações e acesso às tecnologias. A padronização de dados clínicos pode ampliar a participação do paciente no acompanhamento da própria condição, mas exige critérios éticos e clínicos para o uso das informações.
“A tecnologia não substitui o olhar clínico, mas amplia a capacidade de compreender o cotidiano do paciente entre as consultas. Quando conseguimos transformar experiências individuais em dados clínicos consistentes, abrimos caminho para tratamentos mais personalizados e para uma participação mais ativa da pessoa com epilepsia no próprio cuidado”, explica Kamylla.
Para a especialista, um dos próximos desafios será ampliar o acesso às ferramentas digitais. Com registros mais organizados, o período entre uma consulta e outra deixa de ser apenas uma sequência de acontecimentos reconstruída pela memória e pode se tornar uma fonte adicional de informações para o acompanhamento clínico.
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