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Responsabilidade Social • 16:45h • 10 de novembro de 2025

Centro de Memória Fapesp lança exposição virtual Ciência na Amazônia: história e desafios

Iniciativa reúne documentos, fotos e entrevistas com cientistas que, desde 1962, com suas pesquisas fizeram avançar o conhecimento sobre biodiversidade, mudanças climáticas e comunidades tradicionais, entre outros temas

Agência SP | Foto: Acervo Paulo Artaxo

Imagem exibida na exposição que mostra a Torre ATTO vista de dentro do dossel da floresta.
Imagem exibida na exposição que mostra a Torre ATTO vista de dentro do dossel da floresta.

A Amazônia é alvo de interesse científico desde o início do século 19, quando o naturalista alemão Alexander von Humboldt descreveu as paisagens e espécies das “regiões equinociais da América”. Desde essa época, pesquisadores do país e do exterior fizeram avançar o conhecimento sobre os ecossistemas, a biodiversidade, as populações locais e as relações natureza-sociedade na região que será um dos pontos centrais da agenda de debates da 30ª Conferência das Nações Unidas sobre Mudança do Clima (COP30), entre 10 e 21 de novembro em Belém.

A Fapesp apoia pesquisas na Amazônia desde 1962, quando financiou uma das primeiras expedições de Paulo Vanzolini à região. Ao longo de seis décadas, mais de 3 mil pesquisadores embrenharam-se na floresta, desvendando sua biodiversidade, seu papel na provisão de produtos e serviços ambientais, no ciclo do carbono e na regulação do clima – uma região que ao mesmo tempo abriga mais de 30 milhões de brasileiros.

Boa parte desse trabalho de pesquisa está documentada na exposição virtual Ciência na Amazônia: história, desafios e descobertas que o Centro de Memória Fapesp inaugura nesta quinta-feira (6), quando tem início a Cúpula do Clima de Belém, que reúne chefes de Estado e de Governo, ministros e dirigentes de organizações internacionais para discutir os principais desafios e compromissos para o enfrentamento das mudanças climáticas.

A exposição virtual Ciência na Amazônia: história, desafios e descobertas pode ser vista em: https://centrodememoria.fapesp.br/exposicoes/ciencia-na-amazonia/.

Paulo Vanzolini e a zoologia na Amazônia

A exposição Ciência na Amazônia está dividida em três capítulos. O primeiro documenta os resultados do projeto Expedição Permanente à Amazônia (EPA), liderado por Vanzolini. Com apoio da Fapesp, além de descrever várias novas espécies, Vanzolini contribuiu para a formulação da Teoria dos Refúgios.

Frequentemente, Vanzolini convidava artistas para participar da viagem, entre eles, José Cláudio da Silva, que retratou a flora e fauna numa coleção de cem óleos sobre tela que hoje integra o acervo do Palácio dos Bandeirantes, em São Paulo. A exposição dá acesso a documentos, fotos e imagens das expedições de Vanzolini, às obras de José Cláudio da Silva e traz entrevistas com o zoólogo Miguel Trefaut Rodrigues sobre a Teoria dos Refúgios.

Trefaut dirigiu o Museu de Zoologia da Universidade de São Paulo (1997-2001) e trabalha em pesquisas na Amazônia desde 1978. Realizou expedições à região por mais de 40 anos, também com o apoio da Fapesp, várias delas documentadas na exposição.

A primeira parte traz ainda entrevista com Naercio Menezes, especializado em ictiologia. Ele foi estagiário no Museu de Zoologia sob a orientação de Vanzolini e participou das primeiras pesquisas de campo, nos anos 1960.

Amazônia: pesquisa acima do dossel da floresta

O segundo capítulo tem foco nas pesquisas acima do dossel das árvores, que buscam entender o papel da floresta no equilíbrio climático e os riscos que o desmatamento e emissões de dióxido de carbono (CO2) trazem para a vida no planeta.

Carlos Nobre, catedrático do Instituto de Estudos Avançados da USP e copresidente do Painel Científico para a Amazônia, conta, em entrevista, a criação, em 1996, e os resultados do Programa de Grande Escala da Biosfera-Atmosfera na Amazônia (LBA), que envolveu pesquisadores brasileiros, norte-americanos e de cinco países europeus. O objetivo foi estudar em profundidade o funcionamento e a interação de todos os componentes do ecossistema amazônico – atmosfera, solos, rios, flora, fauna e seres humanos. A geofísica Maria Assunção Faus da Silva Dias, pesquisadora da USP, que coordenou o Centro de Previsão de Tempo e Estudos Climáticos do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), descreve em entrevista – e mostra em fotos – o ambiente e os desafios de campanhas de medições intensivas do programa LBA no Pará e em Rondônia.

No mesmo capítulo, Paulo Artaxo, professor titular do Instituto de Física da USP e membro do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC), lembra da campanha GOAmazon (Green Ocean Amazon), em 2013, dos primeiros Projetos Temáticos da FAPESP de pesquisa na região, do desafio de reduzir emissões de gases de efeito estufa e da urgência de se adotar uma economia de baixo carbono para estabilizar a mudança climática (leia mais em: agencia.fapesp.br/18691).

David Lapola, pesquisador do Centro de Pesquisas Meteorológicas e Climáticas Aplicadas à Agricultura da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), detalha o experimento AmazonFACE, que investiga como o aumento de CO2 atmosférico afeta a floresta amazônica, a biodiversidade e os serviços ecossistêmicos que ela fornece à humanidade. O experimento tem apoio do Reino Unido, do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação e da FAPESP (leia mais em: agencia.fapesp.br/32279).

Os impactos do desmatamento e da mudança do clima são analisados por Thelma Krug, líder do Conselho Científico da COP30, e as estratégias de fomento da Fapesp para a pesquisa na região são descritas por Marcio de Castro, diretor científico da Fundação.

A transformação da floresta

O terceiro capítulo homenageia o trabalho de pesquisadores pioneiros, como Luiz Hildebrando (1928-2014), Erney Camargo (1935-2023), Bertha Becker (1930-2013) e Warwick Kerr (1922-2018), que abriram caminho para o avanço do conhecimento e para a implementação de políticas públicas na região, e se dedica às pesquisas mais recentes, realizadas abaixo do dossel da floresta.

Eduardo Neves, diretor do Museu de Arqueologia e Etnologia da USP, explica como a ciência e as novas tecnologias – como o LiDAR (Light Detection and Ranging) – lançaram luz no protagonismo dos povos da floresta, que, ao longo de milênios, criaram a Amazônia que conhecemos atualmente.

O terceiro capítulo também trata do avanço das pesquisas na área de geologia na Amazônia que, há 20 anos, tinham foco na exploração econômica, com perfurações de solo em busca de jazidas de gás e petróleo, na busca de reservas minerais e no potencial hidrelétrico dos rios e que, mais recentemente, passaram a investigar a própria formação de solos, rochas e rios da Amazônia e sua interação com o meio aéreo e os seres vivos sob o ponto de vista ecológico.

Quem fala sobre essa mudança é André Sawakuchi, professor do Instituto de Geociências da USP, que trabalha no Projeto de Perfuração Transamazônica (TADP, sigla para Trans-Amazon Drilling Project), um Temático da Fapesp que tem como objetivo compreender como a formação geológica da Amazônia contribuiu para que ela se tornasse o local com a maior biodiversidade do mundo.

Carlos Américo Pacheco, que foi diretor-presidente do Conselho Técnico-Administrativo da Fapesp, fala sobre a Amazônia +10 – uma iniciativa proposta pela FAPESP e encampada pelo Conselho Nacional das Fundações Estaduais de Amparo à Pesquisa (Confap) e pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) que apoia projetos de pesquisa em colaboração, voltados à conservação da biodiversidade e adaptação às mudanças climáticas, à proteção de populações e comunidades tradicionais, aos desafios urbanos e à bioeconomia como política de desenvolvimento econômico para a região.

Em 2021, durante a COP26 de Glasgow, a Fapesp anunciou a criação de um consórcio envolvendo o Estado de São Paulo e os nove estados da Amazônia Legal (por isso, Amazônia+10) para a realização de pesquisas científicas na região. Diante do sucesso, o programa foi assumido pelo Confap e hoje conta com a participação das Fundações de Amparo à Pesquisa (FAPs) de 25 unidades da Federação.

O terceiro capítulo trata, ainda, da inclusão econômica dos povos da floresta e da complementaridade entre saberes. A antropóloga Manoela Carneiro da Cunha, em entrevista, alerta que a visão da ciência sobre a realidade da Amazônia não pode prescindir do ponto de vista da população que nela vive, diálogo necessário que traz novos e importantes desafios para o campo da pesquisa.

A exposição se encerra com as expectativas de Krug e Nobre (leia entrevista nesta edição de Agência Fapesp) sobre a COP30, de que os debates avancem das negociações formais para ações efetivas, com protagonismo dos países em desenvolvimento.

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