Saúde • 09:43h • 09 de junho de 2026
Centro especializado reúne 15 áreas médicas para atender pacientes com covid longa
Estudo mostra como é possível realizar investigações científicas interdisciplinares e oferecer atendimento para uma condição complexa sem sobrecarregar o paciente
Jornalista: Carolina Javera MTb 37.921 com informações de Agência SP | Foto: Arquivo Âncora1
A pandemia de Covid-19 começou sendo tratada principalmente como uma doença respiratória. Com o passar do tempo, porém, ficou evidente que o vírus pode causar impactos em diversos órgãos e sistemas do corpo, deixando sequelas que persistem por meses ou até anos após a infecção.
Sintomas como fadiga intensa, tonturas, dores musculares, falta de ar, refluxo, formigamentos e queda de cabelo passaram a ser relatados por pacientes mesmo após a recuperação da fase aguda da doença. O quadro, conhecido como covid longa, trouxe novos desafios para a medicina e para os próprios pacientes, que muitas vezes precisam procurar diferentes especialistas sem que haja integração entre os atendimentos.
Diante dessa realidade, pesquisadores da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP) desenvolveram um modelo interdisciplinar inédito para estudar e acompanhar pessoas com sequelas da Covid-19. A iniciativa reuniu 22 grupos de pesquisa de 15 especialidades médicas diferentes com o objetivo de analisar os efeitos da doença de forma integrada.
Segundo a pesquisadora Laura Azevedo, uma das responsáveis pelo estudo, a complexidade da covid longa exigiu uma abordagem diferente da tradicional.
“O organismo funciona como um sistema integrado. Quando observamos as sequelas da Covid-19, percebemos que não bastava avaliar apenas um órgão ou sintoma. Era necessário entender as conexões entre coração, pulmão, rins, músculos e outros sistemas do corpo”, explica.
Modelo integra exames e reduz desgaste dos pacientes
A metodologia foi descrita em artigo publicado na revista científica Clinics e permitiu que os participantes realizassem uma ampla bateria de exames em apenas dois dias de avaliações presenciais.
Ao todo, foram realizados cerca de 11 mil exames, incluindo tomografias, ecocardiogramas, testes cardiopulmonares, avaliações cognitivas, psiquiátricas, musculares, pulmonares e auditivas.
O diferencial do projeto foi a integração dos protocolos. Em vez de cada especialidade solicitar exames separadamente, os procedimentos foram organizados de forma conjunta. Quando diferentes equipes precisavam de avaliações semelhantes, os testes eram unificados, reduzindo o número de procedimentos realizados, o volume de sangue coletado e o tempo de permanência dos participantes no hospital.
A estratégia permitiu uma investigação aprofundada da doença sem aumentar o desgaste físico e emocional dos pacientes, além de otimizar recursos e melhorar a qualidade dos dados coletados.
Os pesquisadores destacam que a experiência demonstrou como a pesquisa interdisciplinar pode aumentar o engajamento dos participantes, reduzir a fragmentação do atendimento e tornar os estudos científicos mais eficientes.
Acompanhamento durou quase quatro anos
O projeto foi desenvolvido dentro de uma pesquisa de acompanhamento de pacientes atendidos no Hospital das Clínicas da FMUSP.
Nas primeiras avaliações, realizadas entre seis e 11 meses após a alta hospitalar, 83% dos participantes ainda apresentavam pelo menos um sintoma relacionado à doença. Entre os mais frequentes estavam fadiga, tonturas, dores no corpo e falta de ar.
Diante desse cenário, os pesquisadores decidiram acompanhar os voluntários por um período de quatro anos.
O processo começou com uma teleconsulta para coleta de informações sobre histórico médico, condições de saúde e qualidade de vida. Em seguida, os participantes passaram por duas visitas presenciais no hospital.
Na primeira etapa foram realizados exames laboratoriais, eletrocardiogramas, testes pulmonares, avaliações musculares e testes físicos. A segunda visita concentrou exames mais complexos, como tomografias, ecocardiogramas, testes de esforço cardiorrespiratório, além de avaliações cognitivas, psiquiátricas e auditivas.
Ao final, os pacientes participavam de uma consulta de retorno para receber explicações detalhadas sobre os resultados. Quando eram identificadas novas alterações ou sequelas importantes, os participantes eram encaminhados para tratamento especializado.
Segundo Laura Azevedo, muitos dos exames realizados dificilmente estariam disponíveis para a maioria dos pacientes na rede pública de saúde. Entre os recursos utilizados está um tomógrafo de alta tecnologia capaz de gerar imagens detalhadas da circulação sanguínea nos pulmões e identificar alterações persistentes relacionadas à infecção.
Banco de dados ajudará a orientar futuras políticas públicas
O modelo também permitiu cruzar informações de diversas áreas para investigar aspectos complexos da covid longa. Os estudos foram organizados em quatro grandes linhas de pesquisa: fadiga crônica, inflamação sistêmica, perda de função muscular e fatores genéticos associados à recuperação dos pacientes.
Todos os resultados foram reunidos em um banco de dados único, compartilhado entre as equipes participantes. A expectativa é que as informações sirvam de base para novas pesquisas e contribuam para o desenvolvimento de estratégias de atendimento mais eficientes.
Coordenado pelo professor Carlos Roberto Ribeiro Carvalho, o projeto reúne mais de 100 profissionais, entre pesquisadores, estudantes e equipes de apoio. A iniciativa contou com financiamento da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp) e apoio da sociedade civil por meio da Fundação Faculdade de Medicina.
Para os pesquisadores, o principal legado do trabalho é mostrar que doenças complexas exigem abordagens integradas, capazes de enxergar o paciente de forma completa e não apenas a partir de sintomas isolados.
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