Ciência e Tecnologia • 16:37h • 29 de junho de 2026
Cientistas alertam para avanço de fungos resistentes e defendem ações globais de combate
Pesquisadores pedem que a resistência a antifúngicos seja incluída entre as prioridades da Organização Mundial da Saúde e alertam para os impactos do uso indiscriminado de fungicidas na agricultura e na medicina veterinária
Jornalista: Carolina Javera MTb 37.921 com informações de Agência SP | Foto: Arquivo Âncora1
Um grupo internacional de pesquisadores defende que o combate aos fungos resistentes a medicamentos passe a ocupar posição de destaque no próximo Plano de Ação Global sobre Resistência Antimicrobiana da Organização Mundial da Saúde (OMS), previsto para ser divulgado ainda este ano. A proposta foi apresentada em um artigo publicado na revista científica Nature Medicine e alerta para o crescimento da resistência antifúngica, que já compromete a eficácia dos principais tratamentos e aumenta o número de mortes causadas por infecções graves.
Entre os autores estão os brasileiros Arnaldo Lopes Colombo, professor da Escola Paulista de Medicina da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), Amanda Ribeiro dos Santos, pesquisadora da Universidade de São Paulo (USP), e Flavio Queiroz-Telles, da Universidade Federal do Paraná (UFPR).
Os cientistas defendem a criação de uma força-tarefa internacional reunindo especialistas em micologia, saúde pública, saúde animal, meio ambiente e formuladores de políticas públicas para desenvolver estratégias integradas capazes de conter o avanço dos fungos resistentes.
Segundo os pesquisadores, a resistência antimicrobiana ocorre quando bactérias, fungos e outros microrganismos deixam de responder aos medicamentos disponíveis. Embora o problema seja mais conhecido em bactérias, as infecções fúngicas resistentes têm recebido pouca atenção e representam uma ameaça crescente, principalmente para pacientes com imunidade comprometida, idosos, crianças e pessoas internadas em unidades de terapia intensiva.
Durante a pandemia de Covid-19, por exemplo, infecções fúngicas oportunistas agravaram o quadro de muitos pacientes em estado grave, contribuindo para o aumento da mortalidade.
Os autores destacam que o desenvolvimento de novos antifúngicos é mais complexo do que o de antibióticos. Isso ocorre porque os fungos possuem células semelhantes às humanas, o que dificulta a criação de medicamentos capazes de eliminar o microrganismo sem provocar efeitos tóxicos no organismo.
Outro fator apontado como responsável pelo avanço da resistência é o uso indiscriminado de fungicidas na agricultura, na indústria e na medicina veterinária. Como muitos desses produtos apresentam estrutura e mecanismo de ação semelhantes aos medicamentos utilizados em humanos, eles favorecem o surgimento de fungos resistentes no ambiente, que posteriormente podem causar infecções de difícil tratamento.
Para enfrentar esse cenário, os pesquisadores defendem a adoção da abordagem de Saúde Única (One Health), que integra ações nas áreas de saúde humana, saúde animal e meio ambiente. Segundo eles, essa estratégia é fundamental porque os fungos circulam entre diferentes ambientes e espécies, tornando ineficazes medidas isoladas.
Entre as principais propostas apresentadas estão a ampliação da vigilância epidemiológica, investimentos em pesquisas, desenvolvimento de testes rápidos para identificar cepas resistentes, ampliação do acesso a medicamentos antifúngicos, incentivo à produção local de novos tratamentos e fortalecimento da capacidade dos laboratórios hospitalares para realizar testes de sensibilidade aos medicamentos.
O grupo também recomenda a criação de programas nacionais de uso racional de antifúngicos na medicina humana, veterinária e na agropecuária, além da adoção de protocolos mais rigorosos para prevenir a transmissão de fungos resistentes em hospitais.
Segundo os pesquisadores, incorporar essas medidas ao plano global da OMS é essencial para evitar que a resistência antifúngica se transforme em uma das principais ameaças à saúde pública nas próximas décadas, comprometendo tratamentos médicos e até a segurança alimentar.
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