Ciência e Tecnologia • 20:55h • 22 de junho de 2026
Cientistas descobrem que o Universo produz buracos negros por diferentes caminhos
Análise de quase 400 colisões cósmicas revela que esses objetos extremos podem surgir em ambientes distintos e passar por múltiplas gerações de fusões
Jornalista: Luis Potenza MTb 37.357 | Com informações da Monash | Foto: Divulgação
Uma das maiores investigações já realizadas sobre buracos negros acaba de reforçar uma ideia que vem ganhando força na astronomia moderna: o Universo não possui apenas uma forma de criar esses objetos extremos. Com base em quase 400 detecções de ondas gravitacionais registradas pelos observatórios LIGO, Virgo e KAGRA, cientistas identificaram evidências de que os buracos negros observados atualmente podem ter origens diferentes, surgindo em ambientes variados e seguindo trajetórias evolutivas distintas.
Os resultados foram obtidos a partir da atualização mais recente do catálogo internacional de ondas gravitacionais, o GWTC-5.0, que reúne centenas de colisões entre pares de buracos negros detectadas ao longo dos últimos anos. Cada uma dessas fusões produz um novo buraco negro, geralmente mais massivo do que os objetos que deram origem ao evento.
O Universo parece ter várias "linhas de montagem" de buracos negros
Até pouco tempo atrás, os cientistas trabalhavam principalmente com teorias sobre como os buracos negros se formavam. Agora, com centenas de eventos observados diretamente por meio das ondas gravitacionais, tornou-se possível analisar padrões em larga escala.
Os pesquisadores concluíram que os sistemas binários de buracos negros não parecem surgir de uma única origem. Em vez disso, existem diferentes "linhas de montagem cósmica" capazes de produzir esses objetos.
Alguns podem nascer a partir do colapso de grandes nuvens de gás que dão origem a estrelas massivas. Outros podem surgir em aglomerados estelares extremamente densos, ambientes onde as interações gravitacionais favorecem encontros e fusões entre buracos negros. Há ainda evidências de que parte deles seja resultado de fusões anteriores, criando uma espécie de árvore genealógica cósmica.
Catálogo reúne quase 400 colisões observadas no espaço
A nova atualização representa o maior crescimento já registrado em um catálogo de ondas gravitacionais.
As observações analisadas incluem centenas de colisões ocorridas a bilhões de anos-luz da Terra. Esses eventos geram pequenas deformações no espaço-tempo, detectadas pelos instrumentos extremamente sensíveis instalados em diferentes partes do mundo.
Com um volume de dados sem precedentes, os pesquisadores passaram a observar tendências que antes eram invisíveis quando apenas algumas dezenas de eventos estavam disponíveis para estudo.
Segundo os cientistas, a astronomia de ondas gravitacionais está entrando em uma nova fase, na qual deixa de analisar apenas eventos isolados para compreender o comportamento da população de buracos negros como um todo.
Massas de todos os buracos negros e estrelas de nêutrons detectadas pelo LIGO-Virgo-KAGRA
Buracos negros super-rápidos chamam atenção dos pesquisadores
Uma das descobertas mais intrigantes envolve a velocidade de rotação de alguns buracos negros.
Os dados mostram que parte desses objetos gira de forma extremamente rápida. Os pesquisadores identificaram dois grupos principais entre esses corpos celestes: um com massas entre 10 e 20 vezes a massa do Sol e outro composto por buracos negros com mais de 45 massas solares.
Para ter uma ideia da escala envolvida, o Sol leva cerca de 25 dias para completar uma volta em torno de si mesmo. Já alguns dos buracos negros observados estariam girando milhares de vezes por segundo.
Essa característica pode ser uma pista importante sobre sua origem.
Buracos negros podem nascer de fusões anteriores
Uma das hipóteses mais fortes levantadas pelo estudo é que parte dos objetos observados seja resultado de fusões ocorridas em gerações anteriores.
Nesse cenário, dois buracos negros colidem e formam um terceiro objeto mais massivo. Posteriormente, esse novo buraco negro volta a se fundir com outro, criando uma cadeia de eventos ao longo do tempo.
Os pesquisadores encontraram evidências de que os buracos negros mais pesados, especialmente aqueles com massa superior a 45 vezes a do Sol, possuem maior probabilidade de participar desse tipo de processo. A descoberta ajuda a explicar por que alguns deles apresentam massas e velocidades de rotação consideradas incomuns pelos modelos tradicionais.
Nova fase da astronomia ajuda a entender a evolução do cosmos
Os cientistas afirmam que o catálogo representa um marco para a pesquisa de ondas gravitacionais. Em vez de observar apenas fenômenos raros e isolados, os pesquisadores agora conseguem identificar padrões estatísticos capazes de revelar como o Universo constrói e transforma seus objetos mais extremos.
Além de ampliar o conhecimento sobre buracos negros, os novos dados poderão ajudar a responder questões relacionadas à evolução das estrelas, à dinâmica das galáxias e aos processos físicos que moldaram o cosmos ao longo de bilhões de anos.
Com cada nova colisão detectada, os astrônomos ganham mais peças para montar um quebra-cabeça que começou a ser revelado apenas na última década, quando as ondas gravitacionais foram observadas diretamente pela primeira vez.
O trabalho completo pode ser lido aqui.
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