Ciência e Tecnologia • 10:52h • 02 de novembro de 2026
Cientistas desenvolvem inteligência artificial capaz de localizar artéria bloqueada durante infarto
Tecnologia desenvolvida por pesquisadores da USP e da Suécia analisa eletrocardiogramas, identifica obstruções nas artérias do coração e ainda precisa passar por novas validações
Jornalista: Luis Potenza MTb 37.357 | Com informações do Governo de SP | Foto: Divulgação
Uma ferramenta de inteligência artificial desenvolvida por pesquisadores da Universidade de São Paulo (USP) e da Universidade de Uppsala, na Suécia, conseguiu identificar infartos causados pela obstrução de artérias do coração com até 96% de precisão em determinadas condições. A tecnologia, apresentada em estudo publicado na revista científica Nature Communications, utiliza dados de eletrocardiogramas para reconhecer sinais de bloqueios coronarianos e indicar a localização da artéria afetada, podendo acelerar decisões médicas em situações de emergência.
O sistema foi treinado com 540.372 eletrocardiogramas de 225.884 pacientes atendidos na Suécia entre 2005 e 2016. Posteriormente, passou por validações com diferentes bases de dados, incluindo exames de 401 pacientes do Instituto do Coração (InCor), em São Paulo, além de registros da Europa e da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG).
O principal avanço está na identificação de infartos que não apresentam alterações clássicas no eletrocardiograma. Nesses casos, considerados mais difíceis de reconhecer, a ferramenta conseguiu identificar corretamente a obstrução em 82% das avaliações. Já nos exames com sinais característicos da doença, o desempenho chegou a 96%.
Tecnologia pode ajudar a identificar infartos que passam despercebidos
O infarto por oclusão coronariana ocorre quando uma artéria responsável por levar sangue ao coração fica bloqueada, impedindo a chegada de oxigênio ao músculo cardíaco. Quanto maior a demora para restabelecer a circulação, maior o risco de danos permanentes.
Segundo José Eduardo Krieger, diretor do Laboratório de Genética e Cardiologia Molecular do InCor e um dos autores do estudo, a rapidez na identificação desses casos é decisiva para o tratamento.
O desafio é que nem todos os pacientes apresentam no eletrocardiograma as alterações tradicionalmente associadas a infartos graves. Nessas situações, os médicos precisam combinar sintomas, exames de sangue e outros procedimentos para confirmar o diagnóstico.
A inteligência artificial foi desenvolvida para reconhecer padrões sutis nos registros elétricos do coração, auxiliando na identificação de pacientes que podem precisar de cateterismo urgente ou de medidas para restabelecer o fluxo sanguíneo.
A tecnologia também poderá contribuir para decisões em atendimentos realizados por ambulâncias, especialmente quando existe a possibilidade de administrar medicamentos para desobstruir artérias. Esses tratamentos podem salvar vidas, mas apresentam riscos importantes, como hemorragias.
Ferramenta ainda é experimental e depende de aprovação da Anvisa
Apesar dos resultados, os pesquisadores destacam que o sistema não substitui a avaliação médica nem fornece, isoladamente, um diagnóstico definitivo. Sua função é oferecer informações adicionais para apoiar decisões clínicas.
O próximo passo será ampliar os testes no InCor, avaliando o desempenho da inteligência artificial em situações reais de atendimento e identificando possíveis limitações.
A utilização da ferramenta na rotina hospitalar ainda dependerá de novas validações e de aprovação da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa).
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