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Ciência e Tecnologia • 15:19h • 12 de março de 2026

Cientistas identificam “rochas plásticas” que podem marcar nova era geológica

Estudos conduzidos por pesquisadora em pós-doutorado na Unesp indicam que fragmentos de plástico já se integram a processos naturais de formação de rochas

Jornalista: Luis Potenza MTb 37.357 | Com informações da Unesp | Foto: Fernanda Avelar Santos

‘Rochas plásticas’ encontradas em ilha no Atlântico reforçam debate sobre impacto humano na geologia
‘Rochas plásticas’ encontradas em ilha no Atlântico reforçam debate sobre impacto humano na geologia

Pesquisadores têm identificado, em diferentes regiões do planeta, um novo tipo de formação geológica que mistura sedimentos naturais com plástico. O fenômeno, conhecido como “rochas plásticas”, foi registrado no Brasil na ilha de Trindade, no meio do Oceano Atlântico, a mais de mil quilômetros do litoral do Espírito Santo. O material foi identificado pela geóloga Fernanda Avelar Santos, atualmente em estágio de pós-doutorado na Unesp, no campus de Presidente Prudente.

A descoberta brasileira ocorreu em 2019, quando a pesquisadora ainda realizava doutorado na Universidade Federal do Paraná. Desde então, estudos laboratoriais vêm analisando a composição e o processo de formação dessas estruturas, consideradas por muitos cientistas um possível marcador da influência humana nos processos geológicos da Terra.


Esse tipo de formação já havia sido observado em diversos países desde 2014, incluindo Portugal, Estados Unidos, Reino Unido, China, Bangladesh, Colômbia e Japão. Em todos os casos, as amostras revelam a presença de plástico integrado a sedimentos naturais como areia, conchas e cascalho.

Plástico atua como “cimento” das rochas

Análises publicadas na revista científica Marine Pollution Bulletin em 2022 mostraram que as rochas plásticas podem apresentar composições diferentes. Em alguns casos, o plástico funciona como um tipo de cimento que une sedimentos naturais, formando estruturas semelhantes às rochas costeiras tradicionais. Em outros casos, as amostras são formadas majoritariamente por plástico derretido.


Entre os materiais identificados nas amostras estão o polietileno e o polipropileno, dois polímeros amplamente utilizados pela indústria devido ao baixo custo e à versatilidade. Esses plásticos acabam integrados ao ambiente natural por meio de processos que envolvem deposição sedimentar, ação humana e queima de resíduos.

A presença desses materiais em formações geológicas tem despertado interesse da comunidade científica porque demonstra que resíduos produzidos pela atividade humana podem permanecer no ambiente por períodos extremamente longos, tornando-se parte do próprio ciclo geológico do planeta.

Ilha remota recebe lixo plástico do mundo inteiro

Apesar de remota, a ilha de Trindade recebe grande quantidade de lixo plástico transportado pelas correntes oceânicas. O local possui presença humana bastante limitada, restrita a pesquisadores e militares que permanecem na ilha por períodos de até quatro meses.

Mesmo assim, a posição geográfica da ilha faz com que ela esteja no caminho de rotas marítimas e dentro do sistema de circulação oceânica conhecido como Giro do Atlântico Sul. Esse fenômeno concentra resíduos flutuantes vindos de diferentes regiões do planeta, principalmente materiais plásticos.


Esse fluxo constante de lixo marinho acaba fornecendo a matéria-prima necessária para a formação das chamadas rochas plásticas.

Pesquisa avança com novas tecnologias

No pós-doutorado realizado na Unesp com apoio da Fapesp, a pesquisadora tem aprofundado a análise da composição dessas rochas utilizando tecnologias avançadas de caracterização físico-química.

Os estudos são conduzidos em parceria com pesquisadores do Laboratório de Materiais Nanoestruturados para Análises Ambientais e Biológicas (NanoAmBio), no campus de Presidente Prudente.

Resultados publicados recentemente indicam que os fragmentos plásticos presentes nas rochas contêm aditivos e corantes utilizados na indústria. Esses elementos aumentam a durabilidade do material no ambiente e podem contribuir para que o plástico permaneça integrado às formações geológicas por longos períodos.


As análises químicas também permitiram identificar a provável origem de parte do plástico encontrado nas amostras. A maior parte dos fragmentos analisados apresenta características associadas a cordas marítimas feitas de polietileno de alta densidade, material amplamente utilizado na navegação comercial e na pesca industrial.

Sinais de uma possível nova era geológica

A presença de plástico incorporado às rochas tem alimentado discussões entre cientistas sobre a possibilidade de a Terra estar entrando em uma nova época geológica conhecida como Antropoceno.

O termo é utilizado para descrever um período em que as atividades humanas passaram a deixar marcas profundas e permanentes nos sistemas naturais do planeta. Embora a ideia ainda divida a comunidade científica, formações como as rochas plásticas são consideradas possíveis evidências desse impacto.

Pesquisas como a conduzida pela equipe da Unesp ajudam a compreender como materiais produzidos pela atividade humana podem se integrar aos processos naturais da Terra, ao mesmo tempo em que reforçam o alerta sobre a escala global da poluição plástica.

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