Ciência e Tecnologia • 19:13h • 05 de novembro de 2026
Cientistas procuram sinais de outras civilizações usando o Sol como referência para um possível contato
Pesquisa do Instituto SETI investiga se o alinhamento entre a Terra e o Sol pode ajudar a identificar o momento e a direção de possíveis transmissões de civilizações fora do nosso planeta
Jornalista: Luis Potenza MTb 37.357 | Com informações do SETI | Foto: Ilustração/Âncora1
E se uma civilização extraterrestre estivesse tentando se comunicar com a Terra, mas ninguém soubesse exatamente quando ou para onde olhar? Essa é uma das questões que motivam uma pesquisa divulgada pelo Instituto SETI, nos Estados Unidos, em 3 de novembro de 2026. Cientistas estão testando uma estratégia que utiliza a posição da Terra em relação ao Sol como referência para procurar possíveis sinais de rádio enviados por civilizações tecnologicamente avançadas. O estudo utiliza antenas instaladas na Califórnia e, embora os primeiros resultados não tenham identificado transmissões extraterrestres, apresenta uma nova maneira de organizar essa busca.
A investigação parte de uma dificuldade que acompanha há décadas os projetos de busca por inteligência extraterrestre; o Universo é imenso, existem inúmeras direções para observar e não sabemos se alguma civilização estaria transmitindo sinais, muito menos em quais frequências ou momentos.
Uma transmissão poderia durar pouco tempo ou acontecer apenas em determinados intervalos. Se os cientistas não estivessem observando a direção correta naquele instante, poderiam simplesmente não perceber sua existência.
A proposta é tentar diminuir essa incerteza utilizando uma referência astronômica que pudesse ser reconhecida tanto pelos pesquisadores terrestres quanto por um hipotético emissor distante.
Como marcar um encontro com alguém que nunca conhecemos?
Imagine duas pessoas que precisam se encontrar em uma cidade desconhecida, mas não conseguem conversar para combinar o local. Sem qualquer orientação, ambas poderiam escolher o monumento mais famoso da cidade, imaginando que a outra pessoa teria a mesma ideia.
Não existe garantia de que o encontro aconteça. Entretanto, escolher uma referência conhecida aumenta a possibilidade de ambas procurarem o mesmo lugar.
Esse raciocínio é conhecido como ponto de Schelling, conceito utilizado para explicar situações em que participantes podem chegar a uma mesma escolha sem comunicação prévia.
Os pesquisadores estão aplicando essa lógica ao espaço. Em vez de um monumento, a referência seria um fenômeno astronômico previsível, o alinhamento da Terra com o Sol, visto de determinadas regiões do Universo.
A hipótese é que uma civilização suficientemente avançada pudesse reconhecer esse alinhamento e utilizá-lo para escolher quando direcionar uma transmissão ao nosso planeta.
O que o Sol tem a ver com uma possível mensagem extraterrestre?
Para compreender a ideia, é necessário imaginar como a Terra seria observada de muito longe.
Dependendo da posição de quem observa, nosso planeta pode passar diante do Sol, provocando uma pequena redução na luminosidade da estrela. Esse fenômeno é chamado de trânsito planetário e também é utilizado pelos astrônomos para descobrir planetas que orbitam outras estrelas.
Uma civilização localizada em uma região adequada do espaço poderia, em tese, detectar a passagem da Terra diante do Sol e perceber que existe um planeta orbitando nossa estrela.
A partir dessa informação, poderia calcular características de sua órbita e, eventualmente, escolher um momento relacionado ao alinhamento para enviar um sinal.
Do ponto de vista terrestre, a direção correspondente fica no lado oposto ao Sol no céu, conhecida como ponto antissolar.
Apesar do nome, não se trata de um lugar físico no espaço, de um planeta ou de uma estação de comunicação. É simplesmente uma direção que os astrônomos conseguem identificar e acompanhar.
A proposta é procurar possíveis transmissões em uma direção e em momentos que também poderiam fazer sentido para um observador extraterrestre.
Estamos olhando para o lugar errado? Nova pesquisa muda a estratégia de busca por sinais extraterrestres
Mas como uma civilização saberia quando transmitir?
Essa é justamente uma das limitações da hipótese.
Para utilizar a posição da Terra como referência, um possível emissor precisaria conhecer sua órbita com precisão suficiente, além de considerar a distância entre os sistemas e o tempo necessário para que o sinal chegasse até aqui.
Ondas de rádio viajam à velocidade da luz, mas isso não significa comunicação instantânea. Uma transmissão enviada de uma região localizada a 100 anos-luz, por exemplo, levaria aproximadamente 100 anos para alcançar a Terra.
Por isso, os pesquisadores não estão prevendo uma data para contato nem afirmando que alguma civilização esteja tentando conversar conosco.
O objetivo é verificar se referências astronômicas compartilhadas podem tornar a busca mais direcionada do que simplesmente observar regiões do céu sem um critério de sincronização.
A possibilidade de utilizar posições previsíveis da Terra para orientar tentativas de comunicação já havia sido discutida pelo pesquisador Robin Corbet em 2002. A campanha atual coloca essa linha de investigação em prática com observações e análise de dados.
Antenas registraram 1,9 milhão de detecções, mas nenhuma era extraterrestre
O estudo utiliza o Allen Telescope Array, conjunto de radiotelescópios localizado na Califórnia, nos Estados Unidos.
Na etapa inicial, realizada durante três noites no verão de 2023, os cientistas utilizaram 20 antenas e acumularam aproximadamente 17 horas de observação, produzindo 32 terabytes de dados.
A análise identificou inicialmente cerca de 1,9 milhão de detecções de rádio. Após a aplicação de filtros e procedimentos de verificação, nenhuma permaneceu como evidência de tecnologia extraterrestre. As detecções foram atribuídas a interferências produzidas por atividades humanas.
Esse é outro desafio importante da pesquisa. A Terra está cercada por transmissões de rádio utilizadas em comunicações, equipamentos eletrônicos e diferentes tecnologias. Alguns desses sinais podem apresentar características que inicialmente despertam interesse científico.
Para distinguir possíveis transmissões distantes das interferências terrestres, os pesquisadores analisam frequências, variações dos sinais e resultados obtidos ao observar diferentes direções do céu.
É importante separar as duas questões: o alinhamento astronômico serve para orientar onde e quando procurar; os filtros de interferência ajudam a avaliar aquilo que foi detectado.
A busca continua, mesmo sem uma mensagem confirmada
Segundo o comunicado divulgado pelo Instituto SETI em novembro, a campanha já havia acumulado mais de 121 noites de observações, com resultados adicionais previstos para apresentação posterior.
Os dados iniciais não demonstraram a existência de uma civilização extraterrestre, mas também não permitem descartar essa possibilidade. Eles representam apenas o resultado das observações realizadas dentro das condições e frequências examinadas.
A investigação também não procura diretamente microrganismos ou outras formas simples de vida. Seu foco são possíveis sinais tecnológicos, conhecidos como tecnossinaturas, que poderiam indicar a atividade de uma civilização capaz de produzir transmissões artificiais.
Não há, até o momento, uma mensagem identificada, um sinal confirmado para decifrar ou qualquer evidência de que extraterrestres estejam tentando estabelecer contato com a humanidade.
O avanço está na estratégia científica, transformar uma hipótese sobre como duas civilizações poderiam escolher uma referência comum em um procedimento de observação que pode ser testado.
A grande pergunta permanece aberta. Se existe alguém tentando se comunicar a partir de outra região do Universo, talvez uma das dificuldades não seja apenas reconhecer a mensagem, mas descobrir onde e quando deveríamos estar escutando.
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