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Cultura e Entretenimento • 16:37h • 17 de dezembro de 2024

Clubes de livros estimulam leitura, vínculos e pensamento crítico

Pesquisa mostra que mais da metade dos brasileiros não lê livros

Da Redação com informações de Agência Brasil | Foto: Alexandre Brum/Clube do Livro CCBB-RJ

Os clubes são historicamente espaços de encontro. Eles ocorrem de forma coletiva e dialógica, mesmo quando são organizados por instituições públicas ou privadas.
Os clubes são historicamente espaços de encontro. Eles ocorrem de forma coletiva e dialógica, mesmo quando são organizados por instituições públicas ou privadas.

Leitora apaixonada desde a adolescência, Jarid Arraes, escritora, cordelista e poeta, sempre buscou ir além da simples leitura e escrita em sua relação com os livros. Movida pelo desejo de compartilhar seu interesse pela literatura de horror, fundou no início deste ano o Encruzilhada, um clube de leitura dedicado a explorar os diversos aspectos que uma boa história de terror pode abordar.

"Queria mostrar às pessoas que a literatura de horror representa muitas questões complexas, sociais e existenciais. Criei o clube para me conectar com outras pessoas que gostam de terror, mas também para atrair novos leitores. Há quem nunca tenha lido nada do gênero e está descobrindo agora", explica Jarid. Nascida em Juazeiro do Norte, no Ceará, a autora de Redemoinho em dia quente, Heroínas Negras Brasileiras em 15 cordéis e Corpo desfeito relembra como o cordel, a escola e a internet foram fundamentais para seu acesso à literatura. "Na minha cidade não havia livrarias, então usei a internet para conseguir acesso aos livros."

Para Jarid, os clubes de leitura têm um papel essencial na formação de comunidades de leitores, capazes de atrair novos interessados. "Quando alguém vê conhecidos participando de reuniões, pode se sentir motivado a entrar também. Para mim, o mais importante nos clubes de leitura é justamente o senso de comunidade", destaca.

A importância dos clubes de leitura

Segundo Márcia Lisbôa Costa de Oliveira, professora do Departamento de Letras da UERJ, os clubes são historicamente espaços de encontro e troca. "Eles possibilitam a aproximação dos livros por aqueles que, hoje, se dizem não-leitores. Esses espaços estimulam uma postura crítica diante dos textos e do mundo, ao promover o contato com diferentes perspectivas", ressalta.

Um exemplo é o Clube de Leitura do Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB), no Rio de Janeiro, que cresceu expressivamente desde sua criação em 2022, durante a pandemia. Em 2023, registrou um aumento de 163% no público, alcançando 1.243 pessoas. Até novembro de 2024, cerca de 1.100 participantes passaram pelos encontros, que contam com a curadoria de Suzana Vargas, autora de Leitura: Uma Aprendizagem de Prazer.

"O objetivo é despertar o prazer pela leitura. Defendo que o suporte não importa; o essencial é mostrar que ler pode ser uma experiência prazerosa e enriquecedora", afirma Suzana. Nomes como Itamar Vieira Junior (Torto Arado), Jefferson Tenório (O Avesso da Pele), e Frei Betto (Jesus militante) foram alguns dos autores discutidos no clube em 2024.


Para a escritora e poeta Jarid Arraes os clubes de leitura são importantes porque criam comunidades de leitores que conseguem ampliar o seu alcance e atrair novas pessoas. Foto - Biblioteca de São Paulo/Divulgação

Desafios para a formação de leitores

Conforme a 6ª edição da pesquisa Retratos da Leitura no Brasil, divulgada em 2024, o país perdeu 6,7 milhões de leitores, marcando a primeira vez em que a proporção de não-leitores superou a de leitores. Nos três meses anteriores à pesquisa, 53% dos brasileiros não haviam lido nenhum livro, enquanto apenas 27% afirmaram ter concluído uma obra no período.

Jarid Arraes aponta o acesso como um dos principais desafios para ampliar a leitura. "Precisamos desmistificar a ideia de que literatura é algo elitizado, reservado a poucos. A literatura deve ser acessível e relevante para todos", defende. Para ela, é necessário diversificar o mercado editorial, publicando autores de diferentes regiões e realidades do Brasil.

Márcia Oliveira acrescenta que questões socioeconômicas também são determinantes. "Muitos brasileiros trabalham longas horas, ganham pouco e têm pouco acesso à educação de qualidade. Para essas pessoas, ler é um privilégio inalcançável, já que mal sobra tempo para viver", analisa. Ela reforça a necessidade de políticas públicas que fomentem a leitura e garantam o acesso a materiais de qualidade.

Outro obstáculo é o preço dos livros. Em 2024, o valor médio de um livro no Brasil chegou a R$ 51,48, enquanto o salário mínimo é de R$ 1.412,00. Essa disparidade torna a literatura inacessível para boa parte da população.

Incentivo à leitura

A pesquisa Retratos da Leitura também revelou tendências no perfil de leitores no Brasil. As mulheres representam a maioria (50,4%), e a faixa etária de 11 a 13 anos é a que mais lê, com 81% de participação. Geograficamente, a Região Sul lidera em proporção de leitores (53%), enquanto o Nordeste apresenta o menor índice (43%).

Márcia Oliveira destaca a importância de iniciativas que democratizem a leitura, como a formação de professores, a ampliação de bibliotecas públicas e escolares e campanhas que valorizem a leitura como forma de prazer e aprendizado.

Ana Isabel Borges, professora do Instituto de Letras da UFF, reforça o papel dos clubes de leitura como ferramentas para fomentar o hábito de ler. "Qualquer atividade que aproxime as pessoas da leitura é positiva, desde que inclua troca de ideias e reflexões sobre os textos", avalia.

Por fim, a pesquisadora enfatiza que melhorar os índices de leitura no Brasil passa por questões estruturais, como condições de trabalho dignas, salários justos e menos desigualdade social. "Sem tempo livre, não há leitura nem qualquer outra atividade que não seja apenas sobreviver", conclui.

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