Saúde • 19:29h • 30 de maio de 2026
Câncer cresce entre adultos jovens no mundo, e estudo liga avanço à obesidade e ultraprocessados
Pesquisa internacional identificou aumento de 11 tipos de tumores em pessoas de 20 a 49 anos e reforça alerta sobre mudanças no estilo de vida
Jornalista: Luis Potenza MTb 37.357 | Com informações da Digital Trix | Foto: Âncora1
O aumento de casos de câncer entre adultos jovens voltou a mobilizar pesquisadores após um amplo estudo internacional identificar crescimento na incidência de 11 tipos da doença em pessoas entre 20 e 49 anos. A análise, conduzida por pesquisadores do Institute of Cancer Research e do Imperial College London, aponta que fatores como obesidade, excesso de peso e mudanças no padrão alimentar podem estar ligados ao fenômeno, embora especialistas alertem que as causas ainda estão longe de ser totalmente compreendidas.
O levantamento analisou dados populacionais da Inglaterra entre 2001 e 2019 e identificou crescimento em tumores de mama, intestino, pâncreas, rim, tireoide, fígado, vesícula biliar, endométrio, boca, ovário e mieloma múltiplo em faixas etárias tradicionalmente menos associadas ao câncer. O estudo reforça uma percepção que vinha crescendo entre médicos nos últimos anos: a doença, historicamente ligada ao envelhecimento, começou a apresentar mudanças importantes em sua distribuição etária.
Especialistas destacam que o principal achado da pesquisa não está apenas no aumento dos diagnósticos, mas no fato de que os fatores clássicos de risco já não conseguem explicar sozinhos o avanço observado entre os mais jovens. “Esse é um estudo muito relevante porque traduz, com dados robustos de base populacional, uma percepção que já vinha sendo observada na prática clínica: o aumento da incidência de câncer em pacientes mais jovens”, afirma o oncologista Carlos Gil Ferreira, CEO da Oncoclínicas&Co.
Fatores tradicionais já não explicam avanço sozinhos
Até pouco tempo, a hipótese predominante era de que o crescimento dos casos estivesse diretamente ligado ao tabagismo, álcool, sedentarismo e alimentação inadequada. Esses fatores continuam relevantes, mas os dados analisados pelos pesquisadores mostram um cenário mais complexo.
Durante o período estudado, indicadores ligados ao tabagismo e ao consumo de álcool apresentaram queda consistente na população analisada. Em alguns grupos, a prática de atividade física aumentou, enquanto o consumo de carne vermelha e alimentos processados também registrou redução.
Mesmo assim, a incidência de câncer entre adultos jovens continuou crescendo. “O estudo muda a lógica da discussão. Ele mostra que não dá mais para explicar esse aumento apenas com os fatores clássicos que sempre usamos. Existe algo além, e isso ainda precisa ser melhor compreendido”, afirma Carlos Gil.
Obesidade aparece como principal fator associado
Entre todos os fatores analisados pelos pesquisadores, apenas um acompanhou a mesma trajetória de crescimento observada nos casos de câncer: o aumento do sobrepeso e da obesidade.
O excesso de gordura corporal já é reconhecido como fator de risco para diferentes tipos de tumor, principalmente devido às alterações hormonais e aos processos inflamatórios crônicos provocados pelo organismo. Segundo os pesquisadores, o índice de massa corporal elevado aparece associado à maioria dos cânceres avaliados no estudo.
No câncer colorretal, por exemplo, estima-se que cerca de 20% dos casos em adultos jovens possam estar ligados ao excesso de peso. Ainda assim, a maior parte dos diagnósticos continua sem explicação definida.
“É importante fazer uma distinção: o estudo não diz que a obesidade, isoladamente, causa esse aumento. Ela é um fator associado relevante, mas não explica todo o fenômeno. Provavelmente estamos lidando com uma combinação de exposições, algumas ainda pouco compreendidas”, afirma o especialista.
Brasil também entra em alerta
Embora a pesquisa tenha sido realizada na Inglaterra, médicos avaliam que o Brasil pode seguir tendência semelhante devido às mudanças recentes no estilo de vida da população.
O país vem registrando crescimento nas taxas de obesidade, aumento do consumo de alimentos ultraprocessados e redução da qualidade alimentar em diferentes faixas etárias. Dados apresentados no Congresso Internacional sobre Obesidade indicam que cerca de 48% dos brasileiros adultos vivem com obesidade, enquanto outros 27% podem apresentar sobrepeso até 2044.
“No Brasil, a gente vive uma epidemia silenciosa de obesidade, especialmente entre adultos jovens, e isso raramente vem isolado. Obesidade, sedentarismo e alimentação baseada em ultraprocessados costumam caminhar juntos e potencializar seus efeitos”, afirma Carlos Gil. Segundo ele, alterações hormonais, aumento da insulina e inflamações persistentes ajudam a explicar parte da associação entre obesidade e desenvolvimento de tumores.
Pesquisadores investigam novos fatores
Além da obesidade, cientistas investigam outros elementos que podem estar ligados ao crescimento do câncer em jovens. Entre as hipóteses analisadas estão consumo elevado de ultraprocessados, alterações da microbiota intestinal, exposição a poluentes ambientais, uso frequente de antibióticos na infância e processos inflamatórios crônicos.
Também existe debate sobre o impacto do avanço dos exames diagnósticos, que passou a identificar tumores mais cedo em parte da população.
“Existem fatores emergentes que ainda não conseguimos medir bem em estudos populacionais, como exposições ambientais ou mesmo alterações na microbiota. Isso exige outros desenhos de pesquisa para avançar nessa compreensão”, explica o oncologista.
Apesar do aumento identificado, especialistas reforçam que o câncer em adultos jovens ainda é relativamente raro quando comparado às faixas etárias mais avançadas. A incidência média permanece em cerca de um caso a cada 1.000 pessoas entre 20 e 49 anos, enquanto em grupos mais idosos o número pode chegar a um caso a cada 100 indivíduos.
Para os pesquisadores, o principal recado continua ligado à prevenção, atenção aos sintomas e busca precoce por avaliação médica. “Se há uma mensagem prática para a população, ela continua sendo a mesma: prevenção, atenção a sintomas e busca por avaliação médica adequada. Isso é o que realmente pode fazer diferença no diagnóstico mais precoce”, conclui Carlos Gil.
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