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Variedades • 17:05h • 26 de junho de 2026

Coluna: A coragem de ocupar o próprio lugar

Mais do que uma "virada de chave", as grandes transformações acontecem quando a experiência, o amadurecimento e a coragem finalmente se encontram

Por Alessandra Lucco | Foto: Divulgação

conhecer o próprio valor é difícil. Agir de acordo com ele é ainda mais
conhecer o próprio valor é difícil. Agir de acordo com ele é ainda mais

Sempre me incomodou a expressão “virada de chave”.

Ela me dá a impressão de que as grandes mudanças da vida acontecem de forma repentina, como se um único momento de coragem fosse suficiente para transformar anos de insegurança, dúvidas e hesitação.

É uma expressão sedutora, mas, para mim, profundamente injusta. Ela ignora tudo aquilo que acontece antes da decisão. Ignora o tempo, os erros, o amadurecimento, o estudo, as renúncias e, sobretudo, o lento processo de construção de quem nos tornamos.

Tenho convicção de que quase nenhuma decisão importante nasce no dia em que é tomada. Ela apenas se torna visível naquele momento. Na realidade, começou muito antes.

Recentemente, vivi uma dessas situações.

Quando fundei meu escritório, aceitei alguns contratos de honorários que, olhando hoje, eram claramente desfavoráveis para mim. Naquela época, porém, faziam todo o sentido.

Eu estava construindo uma carteira de clientes, consolidando meu nome e tentando encontrar espaço em um mercado extremamente competitivo. Havia uma insegurança natural de quem empreende, especialmente no início: o receio de não conseguir clientes suficientes, de demorar a obter retorno financeiro e de talvez não estar pronta para cobrar aquilo que imaginava valer.

Não havia ingenuidade naquela decisão. Havia contexto

Durante muito tempo, esses contratos cumpriram exatamente o papel que deveriam cumprir. Eles me permitiram crescer, adquirir experiência, construir relações profissionais importantes e consolidar uma trajetória da qual me orgulho.

O problema é que o tempo passou. Eu continuei estudando, me especializando, ampliando minha atuação, desenvolvendo novas competências e assumindo responsabilidades muito maiores. Os contratos permaneceram exatamente os mesmos. A profissional que os havia assinado, não.

Foi nesse momento que surgiu um sentimento que acredito ser mais comum do que imaginamos, embora poucos tenham coragem de admiti-lo.

O ressentimento.

Não em relação aos clientes. Eles continuavam honrando rigorosamente aquilo que havíamos pactuado anos antes. O desconforto era inteiramente meu. Aos poucos, comecei a perceber que a remuneração já não refletia a complexidade do trabalho desenvolvido, a responsabilidade envolvida e, principalmente, a profissional que eu havia me tornado ao longo daqueles anos.

Existe uma consequência silenciosa quando permanecemos por muito tempo em relações que deixaram de representar quem somos. O desgaste raramente aparece primeiro na conta bancária. Ele costuma surgir na forma de desânimo, de frustração e daquela sensação difícil de explicar de que algo deixou de fazer sentido. E, quando esse sentimento se instala, ele contamina aquilo que antes era motivo de entusiasmo.

Foi então que compreendi uma verdade desconfortável: reconhecer o próprio valor é apenas metade do caminho. A outra metade consiste em agir de maneira coerente com esse reconhecimento.

E essa talvez seja a parte mais difícil.

Porque agir implica correr riscos. Implica conversar sobre assuntos delicados. Implica suportar a possibilidade de ouvir um “não”. Implica aceitar que algumas pessoas talvez não permaneçam ao nosso lado depois da mudança.

Durante muito tempo pensei em deixar tudo como estava. Afinal, seria mais confortável. Não haveria conversas difíceis, nem o receio de perder clientes que acompanharam minha trajetória desde o início. Permanecer era, sem dúvida, a alternativa menos desgastante.

Mas também era a menos honesta.

Percebi que, se continuasse adiando aquela conversa, estaria alimentando um sentimento que não fazia bem nem para mim, nem para a relação construída com aqueles clientes. Afinal, relações profissionais saudáveis também dependem de equilíbrio. E equilíbrio pressupõe que ambas as partes reconheçam o valor daquilo que está sendo construído.

Foi preciso coragem para renegociar aqueles contratos.

Mas, olhando hoje, percebo que a coragem não nasceu naquele momento.

Ela vinha sendo construída há anos

Nasceu em cada curso realizado, em cada especialização concluída, em cada cliente atendido, em cada erro que me ensinou a ser uma profissional melhor, em cada desafio que ampliou minha visão sobre advocacia, gestão e empreendedorismo. A conversa aconteceu em um único dia. A coragem levou anos para ser construída.

Talvez por isso eu resista tanto à ideia de “viradas de chave”. Ela faz parecer que basta uma decisão para transformar uma trajetória. A vida real costuma ser muito menos cinematográfica e muito mais silenciosa.

As grandes mudanças acontecem aos poucos, quase sempre longe dos olhares. Um dia percebemos que pensamos diferente. Depois que trabalhamos diferente. Até que, finalmente, começamos a decidir de forma diferente.

É apenas nesse momento que o mundo percebe a mudança. Nós, porém, já estamos convivendo com ela há muito tempo.

Hoje, olhando para trás, percebo que renegociar aqueles contratos foi importante, mas não porque passei a cobrar honorários mais condizentes com o meu trabalho. O verdadeiro movimento aconteceu quando aceitei que já não fazia sentido continuar ocupando um lugar que havia sido construído por uma versão muito anterior de mim.

Talvez reconhecer o próprio valor seja exatamente isso. Não convencer o mundo de quem você é. Mas deixar de agir como se ainda fosse quem você já deixou de ser.

Enquanto termino esta coluna, meu chá já esfriou outra vez sobre a mesa. Algumas reflexões têm esse efeito curioso: elas permanecem conosco depois que fechamos o computador. Esta permaneceu comigo por muito tempo e, de certa forma, continua permanecendo, até porque tudo se transforma o tempo todo e eu ainda não sei quais mudanças serão necessárias pra dar espaço à Alessandra do futuro.

Se essa reflexão também encontrar algum espaço nas suas próximas decisões, talvez valha a pena fazer a mesma pergunta que precisei fazer a mim mesma: existe alguma área da sua vida, do seu negócio ou da sua carreira em que você continua ocupando um lugar que já não representa quem você se tornou?

Às vezes, a resposta não exige uma virada de chave.

Exige apenas a coragem de ocupar, finalmente, o próprio lugar.

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