Variedades • 17:01h • 09 de outubro de 2026
Coluna: A sua agenda parece com a vida que você quer ter?
Para quem empreende e tenta conciliar tantos papéis, olhar para os próprios compromissos pode ser uma forma de perceber o que ganhou espaço e o que ficou para depois
Coluna | Alessandra Lucco | Foto: Divulgação
A sua agenda parece com a vida que você quer ter?
Questiono com bastante frequência o seguinte: se alguém olhasse apenas para a minha agenda, sem saber quem eu sou ou o que eu desejo, conseguiria imaginar a vida que eu quero construir?
A pergunta parece simples, mas a resposta pode ser desconfortável.
Porque a agenda é uma espécie de fotografia da nossa vida real. Não da vida que planejamos ter, nem daquela que contamos que queremos ter, mas daquela que efetivamente estamos vivendo.
É ali que aparecem as horas dedicadas aos clientes, às reuniões, aos filhos, à escola, às contas, aos problemas dos outros, às urgências que surgem durante o dia. E também aparece aquilo que não conseguimos encaixar.
Para a mulher empreendedora, essa conta costuma ficar ainda mais complicada. A agenda vai sendo preenchida por tudo aquilo que precisa ser resolvido e, quando percebemos, nossos prazeres parecem desaparecer no meio de tantas demandas.
O problema é que a nossa vida não acontece no espaço que sobra da agenda. Ela acontece justamente naquilo que colocamos nela.
Tenho pensado muito nisso porque, quando falamos de empreendedorismo feminino, é comum discutirmos crescimento, faturamento, posicionamento, clientes, equipe, produtividade. Falamos sobre a empresa que queremos construir, mas nem sempre fazemos a pergunta sobre a pessoa que precisará existir para sustentar essa empresa daqui a cinco ou dez anos.
Se eu quero construir um negócio maior, mas passo todos os meus dias apagando incêndios, talvez haja alguma coisa para rever. Se quero ser uma profissional mais estratégica, mas minha agenda está ocupada quase integralmente por tarefas operacionais, há um desencontro. Se quero ter mais tempo com meu filho, mas não existe nenhum espaço protegido para isso, a intenção, sozinha, não está produzindo uma mudança.
E não estou falando de uma agenda perfeita. A vida real não funciona assim. Há semanas caóticas, períodos de muito trabalho, projetos que exigem dedicação extraordinária e momentos em que simplesmente precisamos fazer o que precisa ser feito. O problema está quando a exceção vira rotina e começamos a chamar de “fase” um modo de vida que já dura anos.
Por isso, às vezes, acho que uma boa revisão de agenda não deveria começar perguntando “como posso fazer mais?”, mas “o que a minha agenda está dizendo sobre a vida que estou construindo?”
Quanto do meu tempo está indo para aquilo que realmente precisa ser feito por mim? Quanto poderia ser delegado? Quanto é estratégico? Quanto é apenas urgente? Quanto tempo existe para pensar, criar, estudar, conversar com pessoas que amo, cuidar do meu corpo, cuidar da minha cabeça e simplesmente não produzir nada?
E há outra pergunta ainda mais importante: como eu me sinto no final de um dia comum?
Não estou falando daquele cansaço natural depois de um dia cheio. Estou falando da sensação que se repete. A angústia de perceber que o dia terminou e você não conseguiu chegar a nada que considera importante. A irritação constante. A tristeza que aparece sem que você consiga explicar exatamente de onde veio. A sensação de estar apenas atravessando os dias, cumprindo compromissos, respondendo mensagens, resolvendo problemas e esperando chegar um momento em que finalmente poderá viver com mais calma.
O corpo, muitas vezes, percebe alguns desses desencontros antes de conseguirmos organizá-los em palavras. Não como uma espécie de oráculo que nos diz exatamente o que está errado, mas como uma experiência que merece ser observada.
Há rotinas que nos deixam cansadas porque estamos fazendo algo difícil e importante. E há rotinas que nos deixam permanentemente distantes de nós mesmas. Diferenciar uma coisa da outra exige alguma honestidade.
É aí que a conversa sobre vocação fica mais profunda. Porque vocação não precisa ser apenas a escolha de uma profissão. Pode ser também uma investigação sobre a vida que faz sentido para nós, sobre aquilo que desperta interesse, sobre o tipo de problema que gostamos de resolver, sobre as relações que queremos cultivar e sobre a maneira como queremos ocupar o nosso tempo. E isso pode mudar ao longo da vida.
Eu mesma tenho aprendido que cuidar da minha mente e do meu corpo não pode ser tratado como uma recompensa por ter terminado todas as outras tarefas. Se eu esperar terminar tudo para então cuidar de mim, provavelmente nunca vai acontecer. Sempre haverá um cliente, uma reunião, uma empresa, uma casa, um filho, uma conta, um projeto ou alguma outra coisa que possa ocupar aquele espaço.
Precisamos entrar na nossa própria agenda antes que a agenda seja completamente preenchida por todo o resto.
Porque, quando olho para os próximos anos, não quero apenas imaginar o tamanho dos negócios que pretendo construir. Quero conseguir imaginar quem eu serei enquanto eles crescem. Quero que exista espaço para a advogada, para a empresária, para a mãe, para a mulher que estuda, que pensa, que conversa, que descansa, que cuida da saúde, que tem amigos, que toma um café sem estar respondendo mensagens e que ainda consegue reconhecer a própria vida quando olha para ela.
Tudo o que você está dando conta está te levando para onde você quer ir?
Até a próxima xícara, com espaço reservado na agenda.
Alessandra Lucco
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