Variedades • 17:43h • 31 de julho de 2026
Coluna: O peso invisível de dar conta de tudo
Uma reflexão sobre a carga mental feminina, a culpa permanente e a necessidade de dividir responsabilidades em uma sociedade que ainda espera que as mulheres deem conta de tudo
Coluna | Ana Clara Vasques Gimenez | Foto: Âncora1
Há algum tempo tenho pensado sobre o que significa, para uma mulher, “dar conta de tudo”.
Talvez porque essa pergunta me remetesse também a minha própria rotina, a de minha mãe e de minha avó.
Sou advogada, professora do curso de Direito e pesquisadora. Faço doutorado, acompanho processos e histórias de clientes que ocupam muitas horas das minhas semanas, preparo aulas, estudo, escrevo, pesquiso. E, quando o expediente termina, se é que ele realmente termina, existe a vida que continua acontecendo: a casa, a família, os compromissos e todas aquelas pequenas responsabilidades que dificilmente encontram espaço em uma agenda, mas ocupam um espaço enorme na nossa cabeça.
Não digo isso para transformar uma rotina atribulada em medalha. Pelo contrário. Tenho desconfiado cada vez mais dessa romantização da mulher que consegue fazer tudo.
Porque existe um tipo de cansaço que não vem apenas das horas trabalhadas. Ele nasce também daquilo que precisamos lembrar, antecipar, organizar e administrar.
É a chamada carga mental.
Não é somente fazer uma compra, mas perceber o que está faltando. Não é apenas marcar um compromisso, mas lembrar que ele precisa ser marcado. Não é somente cuidar de alguém, mas perceber suas necessidades, organizar horários, prever problemas e encontrar soluções.
As pesquisas sobre uso do tempo reiteradamente demonstram que as mulheres dedicam mais horas ao trabalho doméstico e de cuidado não remunerado do que os homens. São horas que não aparecem no salário, muitas vezes não aparecem no currículo e dificilmente são contabilizadas quando falamos sobre produtividade. Mas elas existem. E são retiradas das mesmas 24 horas que também deveriam comportar trabalho remunerado, estudo, descanso, lazer e autocuidado.
É por isso que falar de sobrecarga feminina não significa simplesmente dizer que “as mulheres fazem muitas coisas”. A questão é mais profunda: ampliamos a presença feminina no mercado de trabalho, nas universidades, nas empresas, nas profissões e nos espaços de decisão sem redistribuir, na mesma proporção, as responsabilidades pelo cuidado.
E então surge a culpa.
Culpa por trabalhar enquanto poderíamos estar com a família. Culpa por estar com a família enquanto existe trabalho esperando. Culpa por não estudar o suficiente, por não produzir o suficiente, por não responder rapidamente, por não estar presente, por não cuidar da casa como gostaríamos. Às vezes, até o descanso precisa ser negociado com a consciência.
A discussão deixou, inclusive, de caber apenas nas conversas privadas.
A saúde mental no ambiente de trabalho ganhou maior centralidade na regulamentação trabalhista brasileira, com a inclusão expressa dos fatores de risco psicossociais no gerenciamento dos riscos ocupacionais previsto pela NR-1. Pressão excessiva e outros fatores capazes de afetar a saúde psíquica dos trabalhadores passam a exigir um olhar preventivo também das organizações.
É uma mudança importante porque nos obriga a questionar uma cultura que, durante muito tempo, confundiu exaustão com comprometimento e disponibilidade permanente com competência.
Nesse ponto, uma leitura que considero especialmente provocadora é “Sociedade do Cansaço”, do filósofo sul-coreano Byung-Chul Han. O autor descreve uma sociedade marcada pela cobrança por desempenho, na qual somos constantemente estimulados a produzir mais, realizar mais e superar nossos próprios limites.
Dividir o cuidado, respeitar limites, reorganizar responsabilidades e reconhecer o descanso não como prêmio, mas como parte da vida, também são formas de enfrentar essa sobrecarga.
Porque talvez o contrário da sobrecarga não seja fazer menos, mas não precisar carregar tudo sozinha.
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