Saúde • 15:15h • 02 de julho de 2026
Como o treino aeróbio ajuda a reduzir perda muscular associada ao câncer
Treinamento físico aeróbico é capaz de modular vias de sinalização relacionadas à inflamação que podem atenuar a perda de massa muscular; compreender processo frente aos efeitos do câncer pode abrir caminho para aperfeiçoar intervenções
Jornalista: Carolina Javera MTb 37.921 com informações de Agência SP | Foto: Arquivo Âncora1
A caquexia associada ao câncer é uma síndrome metabólica complexa marcada pela perda progressiva de massa muscular, inflamação sistêmica e piora do estado clínico dos pacientes. Diferentemente da desnutrição comum, a condição provoca resistência anabólica, impedindo que o organismo utilize de forma eficiente os nutrientes ingeridos para produzir novas proteínas, mesmo quando a alimentação é adequada. Por isso, apenas o suporte nutricional não é suficiente para reverter o quadro.
Nesse contexto, a prática de exercícios físicos ganha importância por estimular mecanismos capazes de reativar a construção muscular e permitir melhor aproveitamento dos nutrientes. Um estudo realizado na Escola de Educação Física e Esporte (EEFE) da USP mostrou que o treinamento aeróbio pode reduzir a perda de massa muscular e retardar o crescimento de tumores, desde que uma enzima específica, chamada Heme oxigenase-1 (HO-1), esteja ativa.
A pesquisa foi conduzida pela doutoranda Ailma Oliveira da Paixão, sob orientação da professora Patrícia Chakur Brum, e investigou, em modelo animal, como o exercício físico influencia a ação da HO-1, enzima conhecida por suas propriedades antioxidantes e anti-inflamatórias.
Os resultados indicaram que os animais submetidos ao treinamento apresentaram menor atrofia muscular e redução no crescimento dos tumores. No entanto, quando a HO-1 foi geneticamente desativada no músculo esquelético, esses benefícios desapareceram. A ausência da enzima também esteve relacionada ao aumento do volume tumoral, sugerindo que existe uma comunicação entre músculo e tumor mediada pela HO-1, capaz de influenciar a progressão da doença.
Exercício preserva músculos e pode ajudar no controle do tumor
O objetivo do estudo foi avaliar se o treinamento físico poderia atuar como estratégia complementar no combate à degradação muscular e no controle do avanço do câncer. Para isso, os pesquisadores compararam animais com caquexia submetidos a exercícios aeróbios com grupos sedentários, analisando alterações no músculo esquelético e no tecido tumoral.
Na primeira fase, realizada na USP, os camundongos passaram por quatro semanas de treinamento aeróbio antes da indução do tumor e continuaram praticando exercícios por mais 14 dias após a inoculação das células cancerígenas. O protocolo consistiu em sessões de 60 minutos, cinco vezes por semana.
A segunda etapa foi desenvolvida no Beth Israel Deaconess Medical Center, da Harvard Medical School, onde os cientistas inativaram o gene responsável pela produção da HO-1. Foram utilizados modelos com ausência da enzima apenas no músculo esquelético e também em todo o organismo.
Durante o experimento, os pesquisadores acompanharam o peso corporal e o crescimento dos tumores. Ao final, analisaram amostras de músculos e do tecido tumoral para identificar o papel da HO-1 nos efeitos provocados pelo treinamento físico.
Nos animais com a enzima ativa, os exercícios preservaram a massa muscular e reduziram alterações relacionadas ao estresse oxidativo. Já naqueles sem HO-1 no músculo esquelético, o treinamento não conseguiu evitar a atrofia, demonstrando que a enzima é essencial para que os benefícios do exercício sejam alcançados.
Segundo a pesquisadora, os resultados mostram que o treinamento aeróbio melhora a capacidade física dos animais, mas a presença da HO-1 é indispensável para que essa melhora se traduza em proteção da musculatura e em efeitos positivos sobre o crescimento do tumor.
Embora os resultados sejam promissores, os pesquisadores ressaltam que o estudo foi realizado em animais e, por isso, ainda não pode ser aplicado diretamente em seres humanos. Ainda assim, as descobertas reforçam o potencial do exercício físico aeróbio como estratégia complementar no tratamento da caquexia associada ao câncer e abrem caminho para novas pesquisas que combinem atividade física com terapias voltadas à preservação da massa muscular e ao controle da doença.
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