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Ciência e Tecnologia • 19:33h • 23 de fevereiro de 2026

Companheiros virtuais de IA não substituem vínculos humanos, alerta estudo

Pesquisa da Monash University afirma que chatbots e avatares vendidos como solução para solidão podem aprofundar isolamento e levantar questões éticas

Jornalista: Luis Potenza MTb 37.357 | Com informações da Monash | Foto: Arquivo/Âncora1

Solidão na era da IA: tecnologia pode estar falhando onde mais importa
Solidão na era da IA: tecnologia pode estar falhando onde mais importa

O uso de “companheiros digitais” baseados em inteligência artificial como resposta à solidão e ao isolamento social é alvo de críticas em estudo da Monash University, na Austrália. A pesquisa argumenta que essas tecnologias, promovidas como alternativa ao contato humano, oferecem apenas uma ilusão de conexão e podem, na prática, agravar o problema que pretendem resolver.

Intitulado Against Imaginary Friends: why digital companions are no solution to social isolation, o estudo analisa o avanço de chatbots e avatares voltados principalmente a pessoas idosas, grupo frequentemente apontado como público-alvo dessas ferramentas. Para os pesquisadores, o incentivo ao uso desses sistemas ignora a necessidade fundamental de interação humana real.

O professor Robert Sparrow, da Faculdade de Artes da Monash University e líder do estudo, afirma que a promoção de companheiros digitais como substitutos de vínculos sociais levanta questionamentos éticos relevantes. Segundo ele, embora esses sistemas possam gerar sensação momentânea de companhia, não alteram a condição objetiva de isolamento.

Risco de “projetar para enganar”

O estudo destaca o que chama de problema ético de “projetar para enganar”, ao observar que empresas costumam apresentar esses sistemas como atenciosos e emocionalmente envolvidos, apesar de não possuírem sentimentos genuínos. Os autores apontam que os companheiros digitais são desenvolvidos para maximizar o engajamento do usuário, utilizando mecanismos semelhantes aos das redes sociais e de plataformas de jogos.

Para os pesquisadores, há risco de que usuários vulneráveis se envolvam em interações cada vez mais imersivas, reduzindo oportunidades de relacionamento no mundo real.

No contexto de cuidados com idosos, os autores consideram preocupante a ideia de substituir interações humanas por robôs sociais. Argumentam que cada interação mediada por máquina pode representar uma oportunidade perdida de contato humano, especialmente em ambientes de cuidado.

Limites e privacidade

Além das questões emocionais, o estudo ressalta que companheiros digitais não podem oferecer companhia física nem substituir aspectos como toque e apoio mútuo. Os pesquisadores alertam que a adoção ampla dessas tecnologias pode reduzir ainda mais experiências de convivência presencial.

Há também preocupação com privacidade, dado o volume de dados sensíveis que esses sistemas podem coletar. Segundo os autores, companheiros digitais teriam potencial significativo para influenciar comportamentos e moldar preferências dos usuários, o que reforça a necessidade de supervisão e regulamentação robustas.

O estudo defende um debate público mais amplo e regras claras para evitar que soluções tecnológicas sejam tratadas como substitutas de políticas públicas estruturais voltadas ao enfrentamento da solidão e do isolamento social.

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