Variedades • 15:04h • 16 de outubro de 2026
Conheça 11 mulheres que ajudaram a construir o SUS e transformar a saúde pública no Brasil
Da criação de políticas de saúde feminina à produção de vacinas, médicas, pesquisadoras e lideranças sociais tiveram papel fundamental na consolidação do atendimento universal e gratuito
Jornalista: Luis Potenza MTb 37.357 | Com informações do MS | Foto: Divulgação
A construção do Sistema Único de Saúde (SUS) no Brasil contou com a participação decisiva de mulheres que atuaram na ciência, na política, na formação de profissionais e na mobilização social. Nos 38 anos da Constituição Federal de 1988, que reconheceu a saúde como direito de todos e dever do Estado, as trajetórias de 11 brasileiras ajudam a compreender como o país avançou na criação de um sistema público de atendimento universal, regulamentado em 1990.
Antes mesmo da Constituição, profissionais e lideranças femininas já defendiam mudanças na assistência à saúde. Entre as principais reivindicações estavam a ampliação do atendimento às mulheres para além da maternidade, o acesso da população mais pobre aos serviços médicos e o enfrentamento das desigualdades sociais e raciais.
Essas contribuições se estenderam às conferências nacionais de saúde, à Assembleia Constituinte, à formação de trabalhadores e ao desenvolvimento de pesquisas que orientaram políticas públicas adotadas nas décadas seguintes.
Mulheres participaram da criação das bases do SUS
Ana Maria Costa e Maria da Graça Ohana participaram, em 1983, da elaboração do Programa de Assistência Integral à Saúde da Mulher (PAISM). A iniciativa ampliou a atenção à saúde feminina, incorporando necessidades relacionadas à autonomia, à saúde reprodutiva e ao cuidado em diferentes fases da vida, antecipando princípios posteriormente adotados pelo SUS.
Karla Travaglia representou movimentos comunitários na 8ª Conferência Nacional de Saúde, realizada em Brasília, em 1986. Aos 22 anos, participou das discussões que ajudaram a estabelecer as bases da reforma sanitária brasileira, levando ao debate demandas das associações de moradores do Rio de Janeiro. Posteriormente, atuou como sanitarista na Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz).
Jacqueline Pitanguy teve atuação importante durante a Assembleia Constituinte. À frente do Conselho Nacional dos Direitos da Mulher, articulou reivindicações de movimentos sociais e das 26 deputadas constituintes, defendendo a assistência integral à saúde feminina. A mobilização resultou na Carta das Mulheres Brasileiras aos Constituintes, apresentada em março de 1987.
Sonia Fleury, pesquisadora do movimento sanitário, assessorou a Comissão da Ordem Social na Constituinte. Sua contribuição esteve relacionada à integração entre saúde, previdência e assistência social, em um processo que permitiu desvincular o acesso aos serviços de saúde da contribuição previdenciária e do emprego formal.
Formação profissional e atendimento comunitário
Izabel dos Santos (1927–2010) foi uma das idealizadoras do Projeto Larga Escala, desenvolvido nos anos 1980 para qualificar trabalhadores que já atuavam nos serviços de saúde. A iniciativa contribuiu para a formação profissional e para a estruturação da rede de escolas técnicas do SUS. Sua trajetória na enfermagem começou décadas antes, com a organização de serviços e capacitação de equipes em Minas Gerais.
Zilda Arns (1934–2010), pediatra e sanitarista, foi cofundadora da Pastoral da Criança, em 1983, e integrou o Conselho Nacional de Saúde entre 1991 e 2009. Seu trabalho mobilizou lideranças comunitárias no acompanhamento de gestantes e crianças, com orientações sobre alimentação, prevenção de doenças e cuidados básicos de saúde.
Combate ao racismo e melhorias na assistência às mulheres
Fátima Oliveira (1953–2017), médica e escritora, contribuiu para a formulação de políticas voltadas à saúde da população negra. Suas pesquisas abordaram desigualdades no atendimento e a necessidade de garantir assistência adequada, sem discriminação.
Jurema Werneck, médica e cofundadora da organização Criola, também participou da construção de políticas de igualdade racial no sistema público. Em 2004, integrou, ao lado de Fátima Oliveira, o Comitê Técnico de Saúde da População Negra do Ministério da Saúde, responsável por propor e acompanhar medidas nessa área.
Maria do Carmo Leal, médica e pesquisadora da Fiocruz, coordenou a pesquisa Nascer no Brasil, realizada entre 2011 e 2012. O estudo ouviu 23.894 mulheres em 266 hospitais e identificou desigualdades e intervenções excessivas na assistência ao parto. Seus trabalhos contribuíram para ampliar o conhecimento sobre a qualidade do atendimento obstétrico no país.
Ciência e produção nacional de vacinas
Nísia Trindade Lima tornou-se, em 2017, a primeira mulher a presidir a Fiocruz. Durante sua gestão, a instituição firmou o acordo de transferência de tecnologia com a AstraZeneca para a produção de vacinas contra a covid-19 no Brasil.
Em 2022, a Fiocruz passou a disponibilizar ao Ministério da Saúde doses fabricadas com ingrediente farmacêutico ativo produzido nacionalmente, um avanço na capacidade brasileira de fabricação de imunizantes.
As trajetórias dessas 11 mulheres representam diferentes etapas da construção e do fortalecimento do SUS, desde a defesa do direito universal à saúde até a pesquisa científica, a prevenção de doenças e a ampliação do acesso aos serviços públicos.
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