Saúde • 09:23h • 08 de maio de 2026
Consumo de alimentos ultraprocessados cresce entre povos tradicionais
Baixo custo e acesso facilitado são algumas das causas da mudança
Jornalista: Carolina Javera MTb 37.921 com informações de Agência Brasil | Foto: Rovena Rosa/Agência Brasil
O consumo de alimentos ultraprocessados tem crescido de forma contínua entre povos e comunidades tradicionais no Brasil, enquanto itens historicamente presentes na alimentação dessas populações, como frutas e feijão, vêm perdendo espaço. A constatação é de um estudo que analisou dados de 21 grupos, incluindo quilombolas, ribeirinhos, agroextrativistas, povos de terreiros, ciganos, pescadores artesanais, caiçaras e indígenas não aldeados.
A pesquisa, baseada em informações do Sistema de Vigilância Alimentar e Nutricional entre 2015 e 2022, indica um cenário geral desfavorável, apesar de variações entre os grupos. A maioria dessas populações vive em áreas rurais e depende da agricultura familiar para produção de alimentos.
Entre crianças de dois a quatro anos, o consumo de hambúrgueres e embutidos aumentou 3,87% no período analisado. Já entre crianças de cinco a nove anos, o crescimento foi de 5,59%. Entre adultos e idosos, também houve aumento no consumo desses alimentos, acompanhado, em menor escala, por crescimento na ingestão de verduras e legumes.
No caso das gestantes, os resultados mostram redução tanto no consumo de alimentos saudáveis quanto de ultraprocessados entre adolescentes, com queda no consumo de feijão e frutas frescas. Entre gestantes adultas, houve diminuição no consumo de frutas, enquanto a ingestão de verduras e legumes apresentou leve aumento.
Os pesquisadores apontam que o acesso facilitado aos ultraprocessados, impulsionado por fatores como preço mais baixo, publicidade intensa, maior mobilidade e uso de aplicativos de entrega, tem contribuído para essa mudança no padrão alimentar.
O aumento do consumo desses produtos preocupa especialistas, já que está associado a deficiências nutricionais e maior risco de doenças crônicas, como diabetes tipo 2, hipertensão, doenças cardiovasculares e obesidade.
Considerado pioneiro, o estudo avalia pela primeira vez a evolução do consumo alimentar dessas populações em nível nacional. Os resultados podem contribuir para a formulação de políticas públicas voltadas à promoção de uma alimentação mais saudável, incluindo ações como regulação da comercialização de ultraprocessados e estratégias de educação alimentar.
A pesquisa também destaca que a garantia de acesso a alimentos saudáveis está diretamente ligada à preservação dos territórios dessas comunidades. A perda de espaço para o cultivo próprio e a maior presença de produtos industrializados indicam mudanças estruturais que impactam tanto a alimentação quanto a atuação de profissionais de saúde nessas regiões.
O estudo será publicado na Revista Ciência & Saúde Coletiva e contou com a participação de pesquisadores de diversas instituições brasileiras, com financiamento de órgãos de fomento à pesquisa.
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