Responsabilidade Social • 16:33h • 19 de junho de 2026
Copa do Mundo e neurodiversidade: como tornar a torcida mais inclusiva para pessoas com autismo e TDAH
No dia em que o Brasil volta a campo na Copa de 2026, especialista alerta para desafios sensoriais enfrentados por pessoas neurodivergentes e destaca formas de tornar a experiência do futebol mais acessível
Jornalista: Luis Potenza MTb 37.357 | via Assessoria | Foto: Arquivo/Âncora1
Em dias de jogo da Seleção Brasileira, ruas, bares, praças e telões costumam se transformar em pontos de encontro para milhares de torcedores. Mas o que para muitos representa festa, emoção e celebração pode se tornar uma experiência difícil para pessoas com autismo, TDAH e outras condições ligadas à neurodiversidade.
Segundo estimativas internacionais, o Transtorno do Espectro Autista (TEA) afeta cerca de 1% da população mundial, enquanto o Transtorno do Déficit de Atenção com Hiperatividade (TDAH) atinge entre 5% e 8% dos adultos. Em eventos esportivos de grande porte, como a Copa do Mundo, estímulos intensos de som, luz e aglomeração podem representar barreiras significativas para esse público.
Para o neurologista Dr. Matheus Trilico, referência no atendimento de pessoas com TEA e TDAH na vida adulta, a inclusão passa pela compreensão de que diferentes cérebros processam informações de formas distintas. "A experiência de torcer não deveria ser limitada por barreiras sensoriais. Com informação e algumas adaptações, é possível tornar esses ambientes mais acolhedores para todos", afirma.
Quando a festa se transforma em sobrecarga
Fogos de artifício, buzinas, gritos de torcida, música alta e iluminação intensa fazem parte da atmosfera típica dos jogos da Copa. Para muitas pessoas neurodivergentes, porém, esse conjunto de estímulos pode provocar desconforto físico, ansiedade e dificuldade de regulação emocional.
O especialista explica que o problema não está na falta de interesse pelo futebol, mas na intensidade do ambiente. Sons muito altos, mudanças bruscas de iluminação e locais superlotados podem gerar uma sobrecarga sensorial capaz de comprometer toda a experiência.
Estudos apontam que pessoas autistas frequentemente apresentam hipersensibilidade a ruídos, luzes e movimentações intensas. Em alguns casos, a exposição prolongada pode provocar exaustão, irritabilidade e necessidade de afastamento do ambiente.
O desafio de quem convive com TEA e TDAH
A medicina reconhece que autismo e TDAH frequentemente coexistem. Pesquisas indicam que uma parcela significativa das pessoas autistas também apresenta sintomas clinicamente relevantes de déficit de atenção e hiperatividade.
Na comunidade neurodivergente, essa combinação costuma ser chamada de AuTDAH. Embora o termo não seja uma classificação diagnóstica oficial, ele ajuda a descrever uma realidade em que necessidades distintas convivem simultaneamente.
Segundo Dr. Trilico, isso pode gerar desafios adicionais em eventos como a Copa do Mundo. "O autismo costuma buscar previsibilidade e controle do ambiente, enquanto o TDAH tende a procurar estímulos e novidades. Durante uma partida, essas características podem entrar em conflito diante das constantes mudanças e da intensidade emocional do evento", explica.
Estratégias para reduzir o impacto sensorial
Especialistas recomendam algumas medidas simples para tornar a experiência mais confortável durante jogos, seja em estádios, telões públicos ou ambientes com grande concentração de torcedores.
- Usar fones com redução ou cancelamento de ruído;
- Identificar previamente locais mais tranquilos para pausas;
- Combinar sinais com familiares ou amigos para indicar desconforto;
- Fazer intervalos periódicos em ambientes menos estimulantes;
- Planejar rotas de saída e deslocamento com antecedência.
Essas estratégias ajudam a reduzir a sobrecarga antes que ela se transforme em sofrimento emocional ou físico.
Nem toda torcida acontece no estádio
O neurologista ressalta que inclusão também significa respeitar diferentes formas de vivenciar o futebol. Para muitas pessoas neurodivergentes, assistir aos jogos em casa, acompanhar estatísticas em tempo real ou participar de comunidades online pode ser tão significativo quanto estar em uma arquibancada.
De acordo com Dr. Trilico, não existe uma única maneira correta de torcer. "A Copa do Mundo é um momento de união. Respeitar diferentes formas de participação é reconhecer que a diversidade neurológica faz parte da sociedade. Inclusão começa quando entendemos que pessoas diferentes podem viver a mesma paixão de maneiras diferentes", conclui.
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