Mundo • 14:01h • 30 de julho de 2026
Crianças com câncer ainda podem ter mais ou menos chances de sobreviver dependendo do CEP de nascimento
Estimativa do INCA para 2026 aponta 7.560 novos casos por ano no Brasil e revela que as chances de cura ainda variam de acordo com a região do país
Jornalista: Luis Potenza MTb 37.357 | Com informações da Digital Trix | Foto: Arquivo/Âncora1
O endereço onde uma criança nasce ainda pode influenciar diretamente suas chances de vencer um câncer no Brasil. Dados da Estimativa 2026 do Instituto Nacional de Câncer (INCA) mostram que, embora os avanços da medicina tenham elevado significativamente as taxas de cura, a desigualdade no acesso ao diagnóstico e ao tratamento faz com que crianças de algumas regiões tenham perspectivas muito diferentes de sobrevivência.
Segundo o levantamento, o país deverá registrar 7.560 novos casos de câncer infantojuvenil por ano entre 2026 e 2028, sendo 3.960 em meninos e 3.600 em meninas, com risco médio de 134,81 casos por milhão de crianças e adolescentes de 0 a 19 anos.
A chance de cura ainda depende do CEP
Apesar de representar cerca de 3% de todos os casos de câncer, a doença continua sendo a principal causa de morte por enfermidades não acidentais entre crianças e adolescentes.
O dado que mais preocupa especialistas é a desigualdade regional. Enquanto as taxas de sobrevida se aproximam de 75% nas regiões Sul e de 70% no Sudeste, no Norte do país elas não ultrapassam 50%. A média nacional é de aproximadamente 64%.
Para o oncopediatra Sidnei Epelman, diretor do Serviço de Oncologia Pediátrica do Santa Marcelina Saúde e fundador e presidente da TUCCA (Associação para Crianças e Adolescentes com Câncer), essa diferença revela falhas estruturais que precisam ser enfrentadas.
"Essa diferença é inaceitável e reflete desigualdades que vão muito além do acesso geográfico. Enquanto em países desenvolvidos as chances de cura superam 80%, temos regiões do Brasil onde metade das crianças com câncer não sobrevive. É um problema que exige urgência política e social."
Diagnóstico precoce ainda faz toda a diferença
Pela primeira vez, a estimativa do INCA apresenta um retrato mais detalhado da distribuição dos casos por meio do Projeto OncoBrasil.
Estados como Paraná, Santa Catarina, Rio Grande do Sul, Pernambuco, Paraíba e São Paulo aparecem com taxas mais elevadas de incidência. Segundo o instituto, isso não significa necessariamente que existam mais casos nessas regiões, mas sim maior capacidade de diagnóstico, registro e organização da rede especializada.
Na avaliação de Epelman, o problema está na desigualdade de acesso aos recursos disponíveis. "Hoje já temos tecnologia para tratar pacientes e garantir níveis de resposta positiva idênticos aos padrões internacionais. O problema é que isso ainda não chega a todos. No Brasil, o CEP continua sendo um fator determinante para a sobrevivência."
A Organização Mundial da Saúde (OMS) também destaca que grande parte das mortes por câncer infantil em países de renda média poderia ser evitada com diagnóstico precoce e tratamento adequado.
Quais são os principais sinais de alerta?
Os tipos mais frequentes de câncer na infância são as leucemias, os tumores do sistema nervoso central, os linfomas, os sarcomas de partes moles, o neuroblastoma e o retinoblastoma.
Entre os adolescentes, também ganham destaque os linfomas de Hodgkin e não Hodgkin, os tumores de células germinativas e alguns carcinomas.
Os primeiros sintomas costumam ser pouco específicos, o que dificulta o reconhecimento da doença. Entre os principais sinais de alerta estão:
- Palidez intensa, cansaço excessivo, hematomas frequentes e sangramentos;
- Ínguas persistentes, especialmente quando aumentam de tamanho;
- Dores de cabeça constantes acompanhadas de vômitos ou alterações neurológicas.
Segundo o Dr. Epelman, qualquer alteração persistente deve ser investigada.
"O câncer em crianças e adolescentes é completamente diferente daquele observado em adultos. São tumores de crescimento muito rápido, mas que, quando tratados adequadamente e no tempo certo, apresentam altas chances de cura."
Tecnologia existe, mas ainda não chega a todos
Nas últimas décadas, a oncologia pediátrica passou por avanços importantes com a incorporação de imunoterapias, terapias-alvo, anticorpos monoclonais e tratamentos como o CAR-T para alguns tipos de câncer.
Essas estratégias permitem índices de cura superiores a 80% em centros especializados de países desenvolvidos.
No entanto, especialistas alertam que a medicina de precisão ainda não está amplamente disponível no Sistema Único de Saúde (SUS), principalmente em regiões mais distantes dos grandes centros.
Além da incorporação de novas tecnologias, Dr. Epelman defende investimentos em pesquisa clínica, ampliação da rede de atendimento especializado, exames modernos e capacitação dos profissionais da atenção primária para acelerar o diagnóstico.
Segundo ele, garantir que todas as crianças tenham acesso ao mesmo padrão de tratamento é um dos maiores desafios da oncologia pediátrica brasileira.
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