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Saúde • 15:02h • 10 de janeiro de 2026

Crianças com dificuldade motora percebem menos o ambiente, aponta pesquisa

Pesquisa da UFSCar reforça necessidade de profissionais da saúde e da educação considerarem processamento sensorial para ampliar estratégias de apoio em casos de dispraxia infantil

Jornalista: Carolina Javera MTb 37.921 com informações de Agência SP | Foto: Arquivo Âncora1

Participaram do estudo 694 estudantes de 6 a 11 anos matriculados em escolas públicas e particulares do município de São Carlos (SP); a coleta de dados ocorreu entre março de 2022 e junho de 2024
Participaram do estudo 694 estudantes de 6 a 11 anos matriculados em escolas públicas e particulares do município de São Carlos (SP); a coleta de dados ocorreu entre março de 2022 e junho de 2024

Ainda pouco investigado, o transtorno do desenvolvimento da coordenação (TDC) também interfere na forma como a criança percebe e reage aos estímulos ao seu redor. Isso significa que, além de dificuldades de equilíbrio ou de manipular objetos, ela pode não notar facilmente sons, movimentos ou outras informações sensoriais, o que limita sua autonomia e participação nas atividades diárias.

Esse é um dos achados de um estudo conduzido em um município do interior de São Paulo, que buscou aprofundar a relação entre desempenho motor e alterações no processamento sensorial. Embora a literatura já indique essa conexão, ainda há poucos trabalhos que detalham como essas duas áreas se influenciam.

O TDC, também chamado de dispraxia infantil, é caracterizado por dificuldades no desempenho de habilidades motoras básicas e complexas, como subir escadas, andar de bicicleta, cortar com tesoura ou escrever. Muitas vezes, essas crianças são percebidas como “desajeitadas” ou “lentas”.

A pesquisa avaliou 694 estudantes de 6 a 11 anos de escolas públicas e particulares de São Carlos, entre março de 2022 e junho de 2024. Após testes baseados no Movement Assessment Battery for Children, elas foram divididas em três grupos: 52 com TDC, 137 com possível TDC e 505 com desenvolvimento motor dentro do esperado.

Os cuidadores responderam questionários que permitiram analisar quatro padrões de processamento sensorial: crianças que buscam estímulos (exploradoras), que percebem intensamente esses estímulos (sensíveis), que evitam situações sensoriais (esquivadoras) e as que tendem a não percebê-los (observadoras).

Houve diferenças significativas entre os grupos, especialmente no padrão observador, presente em 35% das crianças com TDC. Essa menor percepção do ambiente pode dificultar o aprendizado e a participação em atividades cotidianas, indicando que os desafios motores podem estar ligados também à forma como essas crianças processam informações sensoriais.

Os padrões sensível e observador apresentaram correlação negativa com o desempenho motor — quanto mais presentes, pior o desempenho. O padrão observador foi o principal preditor, sugerindo forte relação entre baixa percepção sensorial e dificuldades de coordenação. Os resultados foram publicados na revista European Child & Adolescent Psychiatry.

A fisioterapeuta Meyene Duque Weber, da UFSCar, primeira autora do estudo, afirma que pouco se discute sobre como estímulos ambientais afetam crianças com dificuldades motoras. Ela recebeu apoio da Fapesp para conduzir a pesquisa.

Para Eloisa Tudella, coordenadora do Núcleo de Estudos em Neuropediatria e Motricidade da UFSCar e orientadora de Weber, os achados reforçam a importância de atenção das famílias e de profissionais de saúde e educação. Segundo ela, crianças com TDC costumam ser vistas como “atrapalhadas”, sem que recebam avaliação adequada. A equipe dará continuidade à linha de pesquisa em parceria com o professor Jorge Lopes Cavalcante Neto, da Universidade do Estado da Bahia.

Embora não haja estatísticas oficiais, estima-se que o TDC afete entre 5% e 8% das crianças em idade escolar no mundo. A causa ainda é desconhecida, e o diagnóstico clínico é feito por médicos, com apoio de fisioterapeutas e terapeutas ocupacionais.

O diagnóstico considera desempenho motor abaixo do esperado, impacto nas atividades diárias, presença das dificuldades desde o início da infância e exclusão de outras condições que poderiam explicar os sintomas. É comum haver outras condições associadas, como TDAH e TEA. O tratamento envolve fisioterapia e terapia ocupacional para aprimorar a coordenação motora.

Weber destaca que os resultados orientam para avaliações mais amplas, considerando também aspectos sensoriais. Dificuldades motoras podem afetar não só o desempenho físico, mas também a saúde emocional e mental da criança.

Além do estudo de campo, Weber realizou uma revisão sistemática com 2.609 pesquisas, das quais cinco foram incluídas. Elas também apontaram alterações sensoriais em crianças com TDC, especialmente relacionadas ao tato, equilíbrio e movimento. Esse levantamento foi publicado em fevereiro na revista Research in Developmental Disabilities.

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