Educação • 20:14h • 02 de agosto de 2025
Depressão e burnout afastam mais de 150 mil professores das salas de aula no Brasil
Especialistas alertam para crise estrutural na saúde mental dos docentes, marcada por medicalização precoce, sobrecarga emocional e falta de suporte
Jornalista: Luis Potenza MTb 37.357 | Com informações da Lara Assessoria | Foto: Arquivo/Âncora1
O ano de 2023 expôs com ainda mais clareza o impacto da crise silenciosa que afeta educadores em todo o país: mais de 150 mil professores da rede pública foram afastados por transtornos mentais, como depressão e burnout, de acordo com a CNTE (Confederação Nacional dos Trabalhadores em Educação). O dado reflete uma realidade alarmante, marcada pela sobrecarga emocional, pressão familiar, idealizações equivocadas e uso crescente de psicofármacos.
“O adoecimento do professor, muitas vezes, é invisível. Ele continua presente, mas emocionalmente ausente, esgotado por uma rotina que ultrapassa os limites do pedagógico e alcança o emocional”, afirma Jair Soares, psicólogo, professor e fundador do Instituto Brasileiro de Formação de Terapeutas (IBFT). Para ele, o ideal de resiliência extrema atribuído aos docentes contribui para o agravamento do problema.
Estudos da OPAS e da Unicamp apontam o Brasil como líder mundial em transtornos de ansiedade, e o ambiente escolar como um dos mais estressantes para atuação profissional. Professores da educação infantil e dos anos iniciais estão entre os mais vulneráveis. “Não se trata apenas de ensinar conteúdo. Os professores assumem também a responsabilidade emocional dos alunos, algo que deveria ser compartilhado com a família e a sociedade”, ressalta Soares.
Outro fator preocupante é o aumento do uso de antidepressivos entre os educadores. Dados da Anvisa mostram crescimento de 60% no consumo desses medicamentos na última década. “Há uma tendência de medicalizar o sofrimento antes mesmo de compreendê-lo. Muitos tomam remédios apenas para continuar funcionando, o que pode mascarar traumas não resolvidos”, alerta o psicólogo, que defende alternativas como a Terapia do Reprocessamento Generativo (TRG), voltada ao tratamento da dor emocional sem medicalização imediata.
A evasão de profissionais da educação também cresce. Censos educacionais revelam queda no número de licenciados e desinteresse crescente pela carreira docente. “A saúde mental do professor não é só uma pauta individual. É uma questão estrutural, que impacta diretamente a qualidade da formação social de um país”, reforça Soares.
Apesar do cenário crítico, iniciativas pontuais já começam a surgir. Em São Paulo, um projeto-piloto iniciado em 2024 oferece atendimento psicológico gratuito em três diretorias regionais. Os primeiros dados são promissores: redução de 32% nos afastamentos psiquiátricos. Já em Santa Helena de Goiás (GO), o município firmou parceria com o IBFT para oferecer gratuitamente a TRG a todos os professores da rede, com início previsto para o segundo semestre de 2025.
“O sofrimento de quem educa precisa ser enxergado com a mesma seriedade que se exige dos conteúdos ensinados. A escola não pode continuar sendo a única a carregar responsabilidades que são coletivas”, conclui Soares.
Aviso legal
Todos os direitos reservados. É proibida a reprodução, integral ou parcial, do conteúdo textual e das imagens deste site. Para mais informações sobre licenciamento de conteúdo, entre em contato conosco.
Últimas Notícias
As mais lidas do mês
Política
Lula ou Flávio Bolsonaro? Veja onde consultar propostas, histórico e informações antes de votar
Programas de governo em PDF, registros do Senado, despesas federais e plataformas de checagem permitem comparar os candidatos à Presidência com informações oficiais e documentos públicos