Variedades • 18:22h • 18 de outubro de 2026
Déjà-vu: por que o cérebro faz você sentir que já viveu uma situação que nunca aconteceu?
Sensação de familiaridade com momentos inéditos já foi experimentada por cerca de 74% das pessoas saudáveis; especialista explica quando o fenômeno merece atenção
Jornalista: Luis Potenza MTb 37.357 | Com informações da Unoeste | Foto: Divulgação
Entrar em um lugar desconhecido, participar de uma conversa ou presenciar uma situação pela primeira vez e sentir que tudo aquilo já aconteceu é uma experiência conhecida como déjà-vu. O fenômeno, que significa "já visto" em francês, está relacionado aos mecanismos cerebrais de memória e reconhecimento. Segundo uma revisão sistemática de 46 estudos, aproximadamente 74% das pessoas neurologicamente saudáveis já tiveram essa sensação ao menos uma vez.
De acordo com Laerte Romualdo Santos, professor de Psiquiatria e Saúde Mental da Universidade do Oeste Paulista (Unoeste), o déjà-vu acontece quando o cérebro produz uma sensação de familiaridade diante de uma situação que a pessoa reconhece conscientemente como nova.
A experiência pode durar poucos segundos e provocar a impressão de que existe uma lembrança daquele momento, mesmo quando não é possível identificar quando ou onde ele teria acontecido.
O que acontece no cérebro durante um déjà-vu?
O fenômeno envolve estruturas do lobo temporal medial, região cerebral que participa da formação e recuperação das memórias. Entretanto, a ciência ainda não possui uma explicação única e definitiva para sua ocorrência.
Uma das hipóteses é que exista um desencontro momentâneo entre os mecanismos responsáveis por reconhecer algo como familiar e aqueles que permitem recuperar uma lembrança específica.
Segundo o professor, uma situação inédita pode apresentar características semelhantes às de experiências anteriores, como a organização de um ambiente, uma sequência de acontecimentos ou determinados estímulos emocionais. Essas semelhanças podem contribuir para a impressão de que aquele momento já foi vivido.
Isso não significa necessariamente uma falha cerebral. O déjà-vu ocasional também acontece em pessoas saudáveis e, isoladamente, não indica problemas de memória ou doenças neurológicas.
Déjà-vu tem relação com vidas passadas ou outras realidades?
A sensação também desperta interpretações culturais e religiosas. Em algumas tradições que acreditam na reencarnação, o déjà-vu é associado à possibilidade de lembranças de vidas anteriores.
No cinema, o filme Matrix, lançado em 1999, popularizou outra interpretação, apresentando o fenômeno como uma falha na realidade simulada da história.
Essas explicações, porém, não constituem evidências científicas sobre a origem do déjà-vu. As pesquisas concentram-se nos processos cerebrais responsáveis pela memória, familiaridade e reconhecimento.
Quando a sensação pode indicar um problema de saúde?
Embora seja relativamente comum, o déjà-vu merece avaliação médica quando ocorre com frequência elevada, de maneira repetitiva ou acompanhado de outros sintomas.
O professor explica que a sensação pode fazer parte de crises epilépticas focais, especialmente em pessoas com epilepsia do lobo temporal. Nesses casos, podem surgir manifestações como medo repentino, alterações na percepção e mudanças no nível de consciência.
"Não é a simples presença do déjà-vu que indica uma doença neurológica. O que importa é o contexto em que ele acontece, sua frequência, duração, intensidade e a presença de outros sintomas associados", esclarece Laerte Romualdo Santos.
Assim, episódios ocasionais geralmente não representam motivo de preocupação, mas experiências recorrentes ou associadas a alterações neurológicas devem ser investigadas por um profissional de saúde.
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