Economia • 20:23h • 18 de junho de 2026
Endividamento recorde expõe desafio silencioso: a dificuldade das famílias brasileiras em construir patrimônio
Com mais de 80% das famílias endividadas, especialista alerta que o problema vai além das contas e afeta a segurança financeira de longo prazo
Jornalista: Luis Potenza MTb 37.357 | Com informações da Mention | Foto: Divulgação
O Brasil atingiu um marco preocupante em 2026. Dados da Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor (Peic), da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC), mostram que 80,4% das famílias brasileiras possuem algum tipo de dívida, o maior percentual desde o início da série histórica, em 2010. Além disso, 29,6% já apresentam contas em atraso.
Embora fatores como juros elevados e inflação ajudem a explicar parte desse cenário, especialistas apontam que existe uma questão mais profunda por trás dos números: a dificuldade histórica de transformar renda em patrimônio.
O problema vai além das dívidas
Para Daniel Mazza, especialista em Gestão Patrimonial Familiar e sócio-fundador da MZM Wealth, o crescimento do crédito facilitou o acesso ao consumo, mas não foi acompanhado por uma cultura consistente de formação de patrimônio.
Segundo Mazza, muitas famílias acabam utilizando parte significativa da renda para antecipar compras e despesas futuras, enquanto a construção de reservas financeiras e investimentos fica em segundo plano. "Existe uma questão estrutural na forma como as famílias brasileiras se relacionam com o dinheiro. O consumo costuma vir antes da construção patrimonial, criando um ciclo em que poupar e investir acabam sendo constantemente adiados", avalia.
O risco invisível da falta de patrimônio
Enquanto as dívidas aparecem claramente no orçamento, a ausência de patrimônio costuma passar despercebida por anos. No entanto, seus efeitos podem ser igualmente relevantes.
Sem reservas financeiras, famílias ficam mais vulneráveis a situações inesperadas, como desemprego, problemas de saúde ou redução de renda. Nesses momentos, a dependência de empréstimos e financiamentos tende a aumentar, ampliando ainda mais o endividamento.
Além disso, a falta de patrimônio reduz a capacidade de aproveitar os efeitos do longo prazo nos investimentos, especialmente por meio dos juros compostos.
Tempo é um dos principais aliados
Especialistas em planejamento financeiro costumam destacar que a construção patrimonial depende menos de grandes ganhos e mais de constância ao longo dos anos.
Nesse contexto, o tempo se torna um dos recursos mais importantes para quem deseja acumular patrimônio. Quando a renda permanece comprometida por dívidas recorrentes, sobra menos espaço para investimentos e planejamento financeiro, reduzindo as possibilidades de crescimento patrimonial no futuro.
Educação financeira sozinha não resolve
Embora o controle de gastos e a organização do orçamento sejam importantes, Mazza avalia que a construção de patrimônio exige uma visão mais ampla. Entre os fatores apontados como essenciais estão:
- Definição de objetivos financeiros de longo prazo;
- Criação de reservas de emergência;
- Uso consciente do crédito;
- Proteção da renda familiar;
- Planejamento de investimentos compatível com cada realidade.
Segundo o especialista, a formação de patrimônio não depende exclusivamente de salários elevados. "Mais importante do que o valor da renda é a forma como os recursos são administrados ao longo do tempo. Consistência, disciplina e planejamento costumam gerar resultados mais duradouros do que ganhos pontuais sem organização financeira", afirma.
Um desafio para as famílias e para a economia
O avanço do endividamento tem impacto direto no orçamento doméstico, mas também influencia a economia como um todo. Famílias mais vulneráveis financeiramente tendem a consumir menos, investir menos e enfrentar mais dificuldades para lidar com períodos de instabilidade econômica.
Para Mazza, discutir apenas as dívidas não é suficiente. "A questão central não é apenas reduzir o endividamento, mas criar condições para que as famílias consigam construir patrimônio ao longo do tempo. É essa base que proporciona mais segurança financeira e maior capacidade de enfrentar os desafios futuros", conclui.
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