Ciência e Tecnologia • 15:06h • 22 de dezembro de 2025
Entre benefícios e riscos, o que a medicina já sabe sobre testosterona feminina
Especialista explica quando o uso do hormônio é indicado, quais benefícios têm respaldo científico e por que promessas estéticas preocupam médicos
Da Redação | Com informações da Máxima Assessoria | Foto: Arquivo/Âncora1
A testosterona voltou ao centro das conversas sobre saúde feminina, especialmente no período da peri e pós-menopausa, impulsionada por promessas de mais energia, emagrecimento rápido e melhora estética. A ciência, porém, aponta um caminho mais restrito e cuidadoso. Segundo a médica e pesquisadora Fabiane Berta, especialista em menopausa, o papel do hormônio está longe de soluções milagrosas e exige critério clínico rigoroso.
Estudos mostram que, com o avanço da idade, os níveis de testosterona nas mulheres caem de forma significativa, chegando a cerca de 25% do pico observado por volta dos 20 anos. Esse declínio tem impacto principalmente em funções neuroativas, como desejo sexual, motivação, cognição e clareza mental. “A testosterona não é suplemento de disposição nem atalho estético. É um hormônio neuroativo, com ação direta sobre desejo sexual, motivação e cognição”, explica Fabiane.
No contexto da menopausa, a médica destaca a relação entre a queda hormonal e sintomas conhecidos como “névoa cerebral”, caracterizados por lapsos de memória, dificuldade de concentração e raciocínio mais lento. “Quando bem indicada, em dose fisiológica, monitorada e dentro da faixa adequada, algumas mulheres relatam melhora desses sintomas. O problema começa quando surgem protocolos inflacionados vendidos como solução mágica”, alerta.
Do ponto de vista científico, o consenso internacional é claro. A indicação com evidência robusta para o uso de testosterona em mulheres refere-se ao transtorno do desejo sexual hipoativo em mulheres pós-menopausa. Nesses casos, a recomendação é o uso de formulações transdérmicas, em doses fisiológicas, respaldadas por 11 sociedades científicas internacionais. “Trata-se de evidência de nível I, grau A. Fora desse cenário, não há base sólida suficiente para recomendar o hormônio”, afirma.
A popularização do uso da testosterona para emagrecimento, performance ou ganho de massa muscular, sem diagnóstico e acompanhamento, preocupa especialistas. “Nessas situações, o que aumenta não é o benefício, é o risco”, diz Fabiane. Entre os efeitos adversos documentados estão acne, aumento de pelos, alterações de humor e mudanças irreversíveis na voz, além de impactos de longo prazo ainda desconhecidos pela ciência.
Para a pesquisadora, o debate precisa sair do campo das redes sociais e voltar ao eixo científico. “Hormônio não é tendência nem promessa rápida. É decisão clínica baseada em diagnóstico, prescrição individualizada, monitorização contínua e evidência. Qualquer uso fora disso expõe a mulher a riscos desnecessários”, conclui.
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