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Responsabilidade Social • 08:44h • 12 de março de 2026

Especialistas alertam para riscos ambientais de intervenções em praias

Alargamentos e contenções podem alterar ondas e qualidade da água

Jornalista: Carolina Javera MTb 37.921 com informações de Agência Brasil | Foto: Arquivo Âncora1

Cidades litorâneas têm recorrido com frequência à engorda de praia, técnica para ampliar artificialmente a faixa de areia. Municípios como Balneário Camboriú e Piçarras, em Santa Catarina, tornaram-se exemplos desse tipo de intervenção.
Cidades litorâneas têm recorrido com frequência à engorda de praia, técnica para ampliar artificialmente a faixa de areia. Municípios como Balneário Camboriú e Piçarras, em Santa Catarina, tornaram-se exemplos desse tipo de intervenção.

Obras como engordas artificiais de praias, molhes de pedra e muros de contenção têm sido cada vez mais usadas para tentar conter o avanço do mar no litoral brasileiro. No entanto, especialistas alertam que essas intervenções podem causar impactos ambientais e defendem a adoção de soluções baseadas na natureza.

Na semana passada, o governo do Paraná foi multado em R$ 2,5 milhões pelo Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) por utilizar sacos plásticos com areia para conter a erosão na cidade de Matinhos.

Entre as medidas adotadas por cidades litorâneas está a chamada engorda de praia, técnica que amplia artificialmente a faixa de areia. Municípios como Balneário Camboriú e Piçarras, em Santa Catarina, se tornaram exemplos desse tipo de obra.

Pesquisadores da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) apontam que intervenções desse tipo podem alterar a dinâmica natural das ondas e das correntes marítimas. Segundo uma nota técnica do grupo, mudanças nos padrões de circulação da água podem afetar a qualidade do mar e até aumentar o risco de afogamentos em áreas onde a praia foi ampliada.

De acordo com o professor Alexander Turra, do Instituto Oceanográfico da Universidade de São Paulo (USP), estruturas emergenciais costumam resolver um problema em um ponto específico, mas acabam gerando impactos em outras áreas da costa.

Segundo ele, essas obras podem reter areia de um lado, mas intensificar a erosão em outro trecho do litoral. Esse efeito em cadeia pode exigir novas intervenções e comprometer a própria existência da faixa de areia.

O pesquisador cita exemplos no litoral sul da Bahia e também no litoral paulista, onde empreendimentos turísticos foram construídos em áreas naturalmente vulneráveis ao avanço do mar. Em muitos casos, a ocupação ocorreu após a retirada de vegetação de restingas e dunas, que funcionavam como barreiras naturais contra a erosão.

Com o avanço do mar, hotéis e outras estruturas passaram a construir muros de contenção para proteger os prédios. Como consequência, em alguns locais a praia praticamente desaparece durante a maré alta.

Diante desse cenário, pesquisadores defendem a adoção de soluções baseadas na natureza para proteger o litoral. A bióloga Janaína Bumbeer, gerente de projetos da Fundação Grupo Boticário, explica que ecossistemas como manguezais, restingas, dunas e recifes de coral têm papel fundamental na proteção da costa.

Segundo ela, esses ambientes naturais ajudam a absorver a energia das ondas, mantêm os sedimentos no lugar e reduzem os impactos de tempestades. Diferentemente das estruturas de concreto, que são fixas, esses ecossistemas conseguem se adaptar às mudanças naturais do ambiente.

Além da proteção costeira, esses ambientes também geram benefícios econômicos e ambientais. Um estudo coordenado pela pesquisadora estima que os recifes de coral do Nordeste brasileiro evitam prejuízos de até R$ 160 bilhões ao reduzir os danos causados pelo avanço do mar.

Os manguezais também têm papel importante. Além de armazenar grandes quantidades de carbono, esses ecossistemas sustentam cerca de 70% das espécies de peixes exploradas comercialmente no Brasil em alguma fase da vida.

Já as restingas e dunas conseguem acumular sedimentos e crescer verticalmente, acompanhando a elevação do nível do mar quando estão preservadas.

Para especialistas, ampliar o conhecimento da população e planejar melhor a ocupação do litoral são medidas essenciais diante dos efeitos das mudanças climáticas.

Segundo Turra, o litoral é um bem coletivo e precisa ser ocupado de forma planejada. Para ele, decisões baseadas em evidências científicas são fundamentais para garantir que essas áreas continuem existindo e gerando benefícios para as próximas gerações.

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