Saúde • 09:45h • 11 de março de 2026
Estresse na adolescência provoca alterações cerebrais duradouras, aponta estudo
Pesquisa realizada na USP mostra que mudanças no córtex pré-frontal causadas por estresse severo ou trauma na adolescência podem estar ligadas ao surgimento de transtornos como esquizofrenia e depressão
Jornalista: Carolina Javera MTb 37.921 com informações de Agência SP | Foto: Arquivo Âncora1
Situações de estresse durante a adolescência podem provocar mudanças mais profundas e duradouras no cérebro do que quando ocorrem na vida adulta. É o que aponta um estudo realizado por pesquisadores da Universidade de São Paulo (USP), que investigou os efeitos do estresse em ratos e trouxe novas pistas sobre a origem de transtornos psiquiátricos, como depressão e esquizofrenia.
A pesquisa mostrou que experiências estressantes na adolescência podem alterar o equilíbrio entre os neurônios e prejudicar o desenvolvimento das redes cerebrais. Essas mudanças aumentam a vulnerabilidade a problemas mentais que podem persistir até a vida adulta. Os resultados foram publicados na revista científica Cerebral Cortex.
Com apoio da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP), o estudo identificou alterações permanentes em circuitos do córtex pré-frontal — área do cérebro ligada ao controle das emoções e às funções cognitivas.
Segundo os pesquisadores, traumas nessa fase da vida podem desregular o equilíbrio entre sinais de excitação e de inibição no cérebro, o que compromete o funcionamento normal do órgão. Já no cérebro adulto, os efeitos do estresse tendem a ser temporários, pois há maior capacidade de recuperação.
O professor Felipe Gomes, da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto (FMRP) da USP e coordenador do estudo, explica que pesquisas anteriores já indicavam que o estresse severo tem impacto maior na adolescência. “Nosso trabalho mostrou que ele causa desequilíbrio na comunicação entre as células do cérebro em qualquer idade. Mas, como o cérebro adolescente ainda está em desenvolvimento, ele tem menos proteção contra esses efeitos”, afirma.
Para realizar o experimento, os cientistas submeteram ratos machos a um protocolo de estresse durante dez dias consecutivos, com estímulos como choques leves nas patas e restrição de movimento. Foram avaliados dois grupos: um na fase equivalente à adolescência e outro na fase adulta.
Depois disso, os pesquisadores analisaram mudanças na atividade de dois tipos de neurônios presentes no córtex pré-frontal: os excitatórios, que estimulam a atividade cerebral, e os inibitórios, que ajudam a controlá-la.
Nos ratos adolescentes, o estresse provocou aumento prolongado da atividade dos neurônios excitatórios e alterações duradouras nos neurônios inibitórios. Esse desequilíbrio deixou o cérebro em estado de hiperatividade, como se o sistema estivesse acelerado sem um mecanismo eficiente de controle.
Já nos animais adultos, o estresse provocou apenas uma redução temporária na atividade dos neurônios inibitórios. Com o tempo, o cérebro conseguiu recuperar o equilíbrio.
Os pesquisadores também observaram mudanças nos ritmos elétricos do cérebro. Nos adolescentes, houve redução duradoura das chamadas oscilações gama, importantes para funções cognitivas como atenção e memória de trabalho — processos que costumam estar prejudicados em pessoas com esquizofrenia.
Nos adultos, o estresse reduziu temporariamente outro tipo de ritmo cerebral, chamado oscilação teta, responsável pela comunicação entre diferentes áreas do cérebro. Nesse caso, o ritmo voltou ao normal após algum tempo, indicando recuperação da conectividade cerebral.
Estudos anteriores do mesmo grupo já haviam mostrado que o estresse na adolescência pode provocar comportamentos semelhantes aos observados na esquizofrenia. Já quando ocorre na vida adulta, o estresse tende a causar alterações mais associadas à depressão.
Segundo a pesquisadora Flávia Alves Verza, que estuda o tema em pós-doutorado, os novos resultados ajudam a entender por que o momento da vida em que o estresse acontece pode influenciar o tipo de transtorno que se desenvolve.
Os cientistas também destacam que cerca de 40% dos genes ligados ao risco de esquizofrenia também estão associados à depressão. Por isso, uma pessoa geneticamente vulnerável pode desenvolver diferentes transtornos dependendo da fase da vida em que sofre experiências traumáticas.
Para os pesquisadores, os resultados reforçam a importância de estratégias de prevenção voltadas especialmente para adolescentes, principalmente aqueles em situação de maior vulnerabilidade emocional.
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