Responsabilidade Social • 10:03h • 26 de julho de 2026
Estudo da Unesp ajuda a identificar espécies usadas no comércio ilegal de pepinos-do-mar no Brasil
Análise genética de animais apreendidos no Aeroporto de Guarulhos reforça o combate ao tráfico de espécies marinhas e alerta para riscos à biodiversidade da costa brasileira
Jornalista: Luis Potenza MTb 37.357 | Com informações da Unesp | Foto: Fabio Porto-Foresti
Pesquisadores da Universidade Estadual Paulista (Unesp) desenvolveram uma análise genética que permitiu identificar as espécies de pepinos-do-mar apreendidas em operações de combate ao comércio ilegal no Aeroporto Internacional de Guarulhos (SP). O estudo, publicado na revista científica Scientific Reports, aponta que os animais pertencem às espécies Holothuria grisea e Isostichopus badionotus, frequentemente valorizadas na culinária e na medicina tradicional asiática.
Além de caracterizar um crime ambiental, o tráfico desses animais preocupa pesquisadores pelo impacto que pode causar aos ecossistemas marinhos caso a exploração ocorra de forma intensa e contínua.
Pesquisa identifica espécies por meio do DNA
O trabalho foi conduzido pelo Laboratório de Genômica e Conservação de Peixes (Lagenpe), da Faculdade de Ciências da Unesp, em Bauru, em parceria com o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama).
Como os pepinos-do-mar eram transportados secos, a identificação visual das espécies era inviável. A solução foi recorrer à análise molecular.
Segundo o professor Fabio Porto-Foresti, do Departamento de Ciências Biológicas da Unesp, os marcadores genéticos permitem identificar com precisão materiais descaracterizados.

"O marcador molecular nos permite saber o que está sendo comercializado, principalmente na forma descaracterizada, que impede uma análise morfológica. Porém, o que não vemos morfologicamente, vemos do ponto de vista genético", explica.
Exploração pode comprometer o equilíbrio ambiental
Existem cerca de 1.250 espécies de pepinos-do-mar no mundo, sendo aproximadamente 40 encontradas em águas brasileiras.
Embora as espécies identificadas estejam classificadas atualmente como de Menor Preocupação pela União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN), os pesquisadores alertam que isso não elimina os riscos provocados pela exploração ilegal.
Segundo Porto-Foresti, experiências observadas em outros países demonstram que a retirada intensiva desses animais pode reduzir drasticamente suas populações.

"O comércio ilegal de qualquer espécie é extremamente danoso, porque é uma ameaça invisível. O pepino seco, forma em que é transportado, permite que seja levada grande quantidade nas bagagens. Se muitos indivíduos forem retirados na mesma região, isso pode reduzir a população, acabando com o potencial evolutivo da espécie", afirma.
Animais desempenham papel importante nos ecossistemas marinhos
Além do risco de redução populacional, a retirada desses organismos pode provocar impactos sobre o funcionamento dos ambientes costeiros.
O pesquisador Ricardo Utsunomia, também docente da Unesp, explica que os pepinos-do-mar exercem uma função ecológica importante ao processarem matéria orgânica acumulada no fundo do oceano.

Segundo ele, a remoção intensiva desses animais pode provocar desequilíbrios ambientais em curto espaço de tempo.
Projeto fortalece fiscalização do comércio ilegal
A parceria entre Unesp e Ibama teve início em 2015 e já contribuiu para identificar diversas espécies envolvidas no comércio ilegal, incluindo nadadeiras de tubarão, bexigas natatórias de peixes e outros materiais apreendidos.
No estudo mais recente, apoiado pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), os pesquisadores analisaram exemplares secos apreendidos em 2023. Após a extração e amplificação do DNA, os resultados foram comparados com bancos internacionais de dados genéticos.
Segundo Porto-Foresti, a metodologia poderá ampliar o combate ao tráfico de diferentes espécies marinhas. "Com o marcador genético, vai ser possível ver exatamente qual espécie está sendo comercializada, seja para pepino-do-mar, peixe, camarão ou outros grupos", conclui.
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