Responsabilidade Social • 14:13h • 02 de julho de 2026
Estudo da Unesp mostra que paisagens agrícolas estáveis favorecem pequenos mamíferos
Pesquisa indica que cultivos perenes, como eucalipto, podem abrigar mais espécies de roedores do que plantios de ciclo curto, como a soja. Autores argumentam que o trabalho pode orientar estratégias de manejo para conservação da fauna mesmo em áreas rurais
Jornalista: Carolina Javera MTb 37.921 com informações de Agência SP | Foto: Viviane Brito Dias
Pesquisadores da Unesp, em parceria com cientistas da Espanha e do Reino Unido, identificaram que paisagens agrícolas mais estáveis da Mata Atlântica favorecem a presença e a diversidade de pequenos mamíferos. O estudo indica que cultivos perenes, como plantações de eucalipto, oferecem condições mais adequadas para esses animais do que lavouras de ciclo curto, como soja e milho. Segundo os autores, os resultados podem contribuir para o desenvolvimento de estratégias de manejo agrícola e conservação da biodiversidade em áreas cada vez mais fragmentadas pelo avanço da agricultura no estado de São Paulo.
A pesquisa, publicada na revista Agriculture, Ecosystems & Environment, foi realizada no Corredor Cantareira-Mantiqueira, região de Mata Atlântica situada entre o nordeste paulista e o sul de Minas Gerais, considerada estratégica por conectar importantes remanescentes do bioma.
Foram analisados 63 pontos de amostragem, distribuídos entre áreas de floresta, pastagens, lavouras e plantações de eucalipto. Em cada local, os pesquisadores instalaram 50 armadilhas no solo e em diferentes alturas da vegetação para capturar espécies terrestres e arborícolas.
Ao longo do estudo, foram registradas 21 espécies de pequenos marsupiais e roedores, como cuícas, gambás-de-orelha-preta e ratos-do-mato. As informações sobre a ocorrência desses animais foram cruzadas com mapas de uso do solo e índices de vegetação obtidos por imagens de satélite.
Os pesquisadores destacam que a combinação dessas ferramentas permitiu compreender não apenas a ocupação do território, mas também a dinâmica das áreas agrícolas ao longo do tempo. Enquanto os mapas mostram o tipo de cobertura do solo, os índices de vegetação revelam mudanças na produtividade, na estrutura das plantações e na frequência das alterações da paisagem.
Segundo a pesquisadora Viviane Brito Dias, doutora pelo Programa de Pós-Graduação em Biodiversidade da Unesp, essas informações são fundamentais porque características como a estabilidade das áreas agrícolas influenciam diretamente a fauna local.
A pesquisa mostrou que regiões marcadas por constantes mudanças no uso da terra, típicas de culturas temporárias, apresentam menor ocorrência de pequenos mamíferos. Já áreas com vegetação mais estável ao longo do ano, especialmente plantações de eucalipto, apresentaram maior diversidade de espécies.
Entre os registros que chamaram a atenção dos pesquisadores estão espécies endêmicas da Mata Atlântica e pouco documentadas na literatura científica, encontradas justamente em áreas de silvicultura. O resultado sugere que determinados cultivos perenes podem funcionar como ambientes temporariamente favoráveis para parte da fauna nativa.
Os autores ressaltam que ainda são necessários estudos para entender os impactos após a colheita do eucalipto, cujo ciclo varia entre seis e nove anos. Mesmo assim, defendem que o planejamento da paisagem agrícola, alternando culturas de diferentes ciclos, pode contribuir para a conservação da biodiversidade.
Os pequenos mamíferos avaliados pesam, em média, cerca de 100 gramas, e os maiores não ultrapassam dois quilos. Por terem baixa capacidade de deslocamento, dependem diretamente das condições do ambiente ao redor, principalmente da vegetação rasteira e da serrapilheira, onde encontram alimento e proteção contra predadores.
Além de servirem como indicadores da qualidade ambiental, esses animais desempenham funções essenciais nos ecossistemas. Eles fazem parte da dieta de diversos predadores e atuam na dispersão e no controle de sementes, contribuindo para a regeneração e o equilíbrio das florestas.
Os pesquisadores destacam que compreender como diferentes formas de uso da terra afetam essas espécies é especialmente importante na Mata Atlântica, um dos biomas mais fragmentados do país. No estado de São Paulo, a substituição de pastagens por áreas agrícolas reforça a necessidade de conciliar a produção de alimentos com a conservação ambiental.
O estudo integra o projeto de longa duração Biodiversidade e serviços associados: PELD Corredor Cantareira-Mantiqueira, financiado pela Fapesp, que investiga como paisagens florestais, agrícolas e urbanas influenciam a distribuição de espécies, os processos ecológicos e os serviços ecossistêmicos.
Segundo Viviane Brito Dias, embora a preservação integral dos habitats naturais seja o cenário ideal para a fauna, é necessário buscar soluções que conciliem a atividade agrícola com a manutenção da biodiversidade. Para a pesquisadora, práticas de manejo que tornem as paisagens mais estáveis podem beneficiar tanto a produção quanto a conservação das espécies e dos serviços ambientais que elas oferecem.
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